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Da agenda de Trump ao dólar no Brasil: o que pode mudar com eleições nos EUA

Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: Anna Moneymaker/Getty Images via AFP

As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira (3), podem reduzir a margem do presidente Donald Trump para aprovar medidas econômicas e produzir efeitos no dólar e nos juros brasileiros. A votação definirá o controle do Congresso, órgão que decide sobre gastos públicos, impostos e parte das regras de regulação da economia estadunidense.

Os eleitores renovarão as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Enquanto deputados cumprem mandatos de dois anos, senadores permanecem por seis anos; por isso, apenas cerca de um terço da Casa entra em disputa, sem alterar o comando da Presidência.

Projeções citadas pelo BTG Pactual apontam vantagem democrata, especialmente na Câmara. O modelo do “The Economist” estimava 239 cadeiras para os democratas e 196 para os republicanos, com 96% de chance de maioria da oposição; no Polymarket, essa probabilidade chegava a 92%.

No Senado, a disputa aparecia mais equilibrada. O cenário-base do BTG previa 51 cadeiras democratas e 49 republicanas, após considerar 91 vagas praticamente definidas e nove corridas apertadas; as estimativas de maioria democrata variavam de 65% no Polymarket a 72% no modelo do banco.

Controle do Congresso pode limitar medidas de Trump

A economista Andressa Durão, do ASA, avaliou em entrevista ao g1 que uma vitória democrata reduziria o poder de Trump para aprovar determinadas medidas e aumentaria a fiscalização sobre seu governo. Caso a oposição controle Câmara e Senado, também comandará comissões de investigação e terá maior influência sobre a confirmação de indicados para cargos no Executivo, no Federal Reserve e na Suprema Corte.

Cabines de votação nos EUA. Foto: reprodução

 

Se os democratas conquistarem apenas a Câmara, poderão dificultar projetos e a liberação de recursos, mas os republicanos preservariam influência sobre nomeações ao manter o Senado. Trump continuaria com poder de veto sobre propostas aprovadas pelo Congresso, que só pode derrubá-lo com maioria qualificada nas duas Casas.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, relaciona o desgaste de Trump à insatisfação com o custo de vida. Ele citou a gasolina acima de US$ 4 por galão e o diesel em US$ 6, afirmando que a retomada de ao menos uma das Casas pelos democratas já tornaria mais difícil o avanço da agenda legislativa do presidente.

Para o Brasil, a consequência mais imediata pode vir pelos rendimentos dos títulos do Tesouro estadunidense e pela cotação do dólar. Se investidores enxergarem aumento de despesas acima da arrecadação nos EUA, os juros desses títulos podem subir, atraindo capital que poderia seguir para países emergentes e pressionando o real.

Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, avalia que uma vitória republicana nas duas Casas daria a Trump mais espaço para cortes de impostos, desregulamentação e políticas comerciais mais duras. “Isso tende a pressionar o dólar para cima frente ao real, elevar os juros futuros brasileiros e dificultar o desempenho da bolsa — especialmente de empresas mais endividadas e de setores sensíveis ao crédito, como varejo e construção.”

Uma maioria democrata, na avaliação de Praça, poderia limitar novas medidas de estímulo e aliviar a pressão sobre os juros estadunidenses, favorecendo a entrada de recursos no Brasil. Conflitos entre a Casa Branca e o Congresso em torno do orçamento, porém, também podem elevar a insegurança dos investidores e provocar oscilações nos mercados.

A relação entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também entra nos cálculos do mercado, após atritos envolvendo tarifas e a Lei Magnitsky. Praça afirma que uma vitória republicana pode prolongar esse tipo de confronto, embora Trump ainda possa recorrer às Seções 232 e 301 da legislação comercial estadunidense para aplicar tarifas sobre importações.

A Suprema Corte dos EUA derrubou, em 20 de fevereiro, tarifas adotadas por Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, mas a decisão não atingiu medidas sustentadas pelas Seções 232 e 301. No Brasil, o dólar voltou à faixa de R$ 5,40 após as oscilações eleitorais, em um ambiente de fortalecimento global da moeda estadunidense diante das expectativas de juros mais altos nos Estados Unidos.