
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, nesta terça (3), podem aumentar a pressão sobre o governo de Donald Trump em temas que atingem o Brasil, como tarifas comerciais, sanções e a atuação americana na América Latina. Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo avaliam que uma eventual maioria democrata na Câmara abriria espaço para uma fiscalização mais intensa sobre a Casa Branca.
Entre os assuntos que poderiam entrar no radar estão a concessão de vistos a Flávio Bolsonaro (PL) e a possível participação de autoridades dos EUA em sua saída do Brasil após a derrota de Lula (PT). Parlamentares democratas já cobram explicações do Departamento de Estado sobre o caso.
Em setembro, 31 congressistas pediram que o governo Trump não interferisse na eleição brasileira e reconhecesse o resultado do pleito. Na sexta-feira (30), outros 25 deputados solicitaram informações sobre a entrada de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos, enquanto três integrantes da bancada progressista do Congresso cobraram de Trump o reconhecimento da vitória de Lula.
Os americanos escolherão os 435 integrantes da Câmara e 35 dos 100 senadores. Os republicanos controlam hoje as duas Casas do Congresso, mas uma mudança de maioria daria aos democratas instrumentos para convocar autoridades, requisitar documentos e ampliar o escrutínio sobre decisões do Executivo.
Vistos, tarifas e Marco Rubio podem entrar na fiscalização

Mark Langevin, analista sênior da consultoria Horizon Engage, afirmou que uma Câmara controlada pelos democratas tende a investigar as circunstâncias do visto concedido a Flávio Bolsonaro e a atuação do secretário de Estado, Marco Rubio, no episódio. A capacidade de avançar com medidas mais duras dependeria também do resultado no Senado.
Nick Zimmerman, pesquisador sênior do Inter-American Dialogue e ex-diretor para Brasil e Cone Sul na Casa Branca de Barack Obama, comparou o provável cenário a uma série de CPIs. “Seria um monte de investigações, de cartas exigindo mais informações para tentar montar uma narrativa política e eleitoral de corrupção [contra o governo Trump]”, disse.
A política tarifária de Trump, que provocou atritos com o Brasil em seu segundo mandato, também pode virar alvo de apurações. Zimmerman avalia que deputados democratas poderiam questionar os critérios para impor tarifas, negociar exceções e atender a demandas de grupos de lobby, inclusive em tratativas comerciais que envolvam o Brasil.
Bruna Santos, diretora do Brazil Program do Inter-American Dialogue, citou propostas para ampliar o controle do Congresso sobre tarifas, com exigências de notificação ao Legislativo ou aprovação parlamentar em determinadas medidas. Para ela, uma nova maioria democrata elevaria o custo político das decisões de Trump, mas uma reversão ampla enfrentaria barreiras e exigiria apoio bipartidário.
O Departamento de Estado também pode se tornar foco da fiscalização. Lucas de Souza Martins, professor da Universidade Temple, apontou que a política de Marco Rubio para a América Latina ganhará atenção caso o secretário seja visto como possível candidato à Presidência em 2028: “Se você ataca a política externa do Rubio, especificamente na América Latina, você vai resvalar no Brasil”.
Bruna Santos pondera que os freios no Congresso não garantem redução da pressão americana sobre o Brasil. Com mais obstáculos à agenda doméstica, Trump poderia concentrar esforços na política externa, área em que o presidente dos EUA mantém maior autonomia, inclusive nas relações com países da América Latina.