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Sakamoto: São Paulo entrega seu Big Brother ao crime com falhas no Smart Sampa

Central Smart Sampa em São Paulo
Central de monitoramento do Smart Sampa, programa da Prefeitura de São Paulo. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Dessa forma, São Paulo facilita a vida da bandidagem que não precisa mais sair de casa para fazer tocaia para seus alvos. Para provar que o acesso era real, a reportagem foi aos Campos Elíseos e se deixou filmar acenando para as câmeras e depois acessou as imagens. É o tipo de cena que seria cômica se não fosse trágica: o cidadão dá tchau para o Big Brother, e quem está do outro lado da tela não precisa ser o Estado. Pode ser qualquer um.

E “qualquer um” incluía quem quisesse ver, ao vivo, as ruas onde moram o ministro do STF Alexandre de Moraes e os ex-presidentes Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso. Ou a entrada de clubes como a Hebraica e a Sociedade Hípica Paulista. Se nem o pessoal do andar de cima está protegido, imagine o restante que não tem segurança particular nem assessoria para reclamar.

Um sistema desenhado para controle e zeladoria, quando vaza, deixa de ser ferramenta do Estado. Vira infraestrutura disponível para quem for criativo diante da brecha. Câmeras de parceiros privados costumam apontar para portarias, garagens, escolas e comércios. Com acesso irrestrito, dá para montar um dossiê de horários, companhias e trajetos de milhares de pessoas.

Esse era um dos riscos que especialistas e organizações da sociedade civil voltadas à proteção de dados alertaram quando o sistema foi projetado. Para eles um “eu avisei” não vai ser o bastante. Mesmo que a brecha entregue “só” o vídeo, imagens contínuas e em alta resolução podem ser capturadas e jogadas em softwares paralelos de reconhecimento facial. Ou seja, bases biométricas clandestinas, montadas com material que o cidadão nunca autorizou que fosse usado assim.

Sem contar que facções criminosas sabem fazer contrainteligência. Câmeras abertas permitem acompanhar o padrão de patrulhamento da PM e da GCM, identificar viaturas, mapear rotas de fuga e áreas desguarnecidas antes de uma ação. O olho que deveria vigiar o crime pode trabalhar para ele.

E há o risco mais direto. Acompanhar uma vítima em tempo real permite saber o momento exato em que ela chega em casa ou para no semáforo. É logística de precisão para sequestro-relâmpago, roubo de carro e extorsão.

Ricardo Nunes. Foto: Reprodução

A gestão Ricardo Nunes nega que os dados estivessem públicos na internet. Diz que a lista de links é uma planilha produzida pela Prodam numa análise de cibersegurança pedida pelo prefeito, que seu envio ao UOL é “ato criminoso” e que não há sinais de ataque externo. Afirma ainda que as mais de 20 mil câmeras próprias do município não estavam na planilha, e que a segurança das câmeras parceiras é responsabilidade de cada empresa. A Monuv, por sua vez, diz seguir as especificações de acesso e segurança definidas pelo próprio Smart Sampa.

A versão da prefeitura não responde ao essencial. Venha de um código exposto ou de uma planilha vazada, o fato é que os links abriam transmissões ao vivo sem pedir senha a ninguém. Se basta uma planilha circular para milhares de câmeras ficarem acessíveis, o problema é de um sistema que permite isso.

E há um ping-pong curioso de responsabilidades. A prefeitura integra as câmeras ao seu programa, usa o volume delas como vitrine política, mas diz que a segurança é com os parceiros. O parceiro diz que segue as regras da prefeitura. No meio, fica o cidadão, que cedeu suas imagens acreditando num anel de proteção e descobriu que estava num aquário.

A tecnologia deveria proteger a população. Do jeito que está, o modelo funciona como um hub que centraliza e redistribui vulnerabilidades, terceirizando o risco para quem está na calçada sem oferecer as garantias de proteção de dados que a lei exige.

O Grande Irmão de São Paulo prometia vigiar bandidos. Esqueceu de trancar a porta da sala de monitoramento.