
Por Dyepeson Martins
Mais do que um nome na política, Felipe Sousa-Lazaballet, 40, também quer ser símbolo de representatividade. Ele se tornou o primeiro brasileiro eleito representante (um deputado estadual, para nós) na Flórida, nos Estados Unidos (EUA). O estado é reduto político do Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, principal responsável pela expansão do movimento nacionalista Make America Great Again (MAGA) na América Latina. Na Flórida também está localizada a Mar-a-Lago, uma espécie de Casa Branca secundária utilizada por Trump como centro de deliberações políticas.
Filho de empregada doméstica, Felipe nasceu em Duque de Caxias (RJ) e, aos 14 anos, migrou para os EUA. É ativista comunitário, militante do movimento LGBTQIA+ e agora também é o primeiro imigrante abertamente gay a integrar a Florida House of Representatives (a Assembleia Legislativa da Flórida).
Em entrevista à Agência Pública, ele reforçou que teve a campanha pautada pela igualdade de direitos sociais e comentou a controversa política trumpista que, ao mesmo tempo, deporta imigrantes que fortalecem a economia americana, enquanto ajuda figuras como o Flávio Bolsonaro (PL). O senador deixou o Brasil dois dias depois de ser derrotado na eleição à Presidência da República apesar da determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para que ele entregasse o passaporte à Polícia Federal.
“Primeiro, queria dizer que, pra mim obviamente, o Brasil é um país soberano e a Justiça do Brasil deve ser respeitada. Pra mim não faz sentido nenhum que os Estados Unidos estão aceitando uma pessoa que está literalmente fugindo da Justiça no Brasil e, enquanto isso, está deportando uma empregada doméstica, ou seja, não faz sentido nenhum”, declarou o deputado eleito. Flávio Bolsonaro é investigado, entre outros crimes, por lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Além de Felipe, outros seis brasileiros foram eleitos deputados estaduais nos EUA. Em Massachussets, foram quatro: Danillo Sena, Lorena Betts, Priscila Sousa e Rita Mendes. Em Connecticut, foi eleito Farley Santos e, em Nevada, Elaine Marzola.
A eleição americana representou uma grande derrota ao presidente Donald Trump com a vitória avassaladora de candidatos do partido Democrata, que agora tem a maioria no Congresso Nacional americano. Na Câmara, dos 435 membros votantes, haverá 231 democratas, 139 republicanos e 65 nomes ainda em definição devido às disputas acirradas em alguns estados, que podem levar semanas para contabilizar todos votos. Os Democratas também terão 54 das 100 vagas do Senado. Os republicanos garantiram 44. Duas vagas ainda estão em definição.
As eleições de meio de mandato são chamadas de “midterms” e marcam a metade da gestão de Donald Trump. Nos EUA, o sistema de votação e apuração dos votos ocorre de forma descentralizada e cada estado tem autonomia para definir as regras do pleito na região, diferentemente do modelo adotado no Brasil, onde as normas são regidas pelo Superior Tribunal Eleitoral (TSE).
“Por muito tempo, os democratas não estavam tão focados nos assuntos que realmente estão impactando mais a classe trabalhadora aqui, que é o custo de vida, ter oportunidade de poder ter um imóvel próprio, que é o caminho mais comum e tradicional de conseguir chegar ao sonho americano”, frisou Sousa-Lazaballet.
There are no words to communicate the honor and gratitude I feel tonight.
My story is the American Dream – I came here undocumented, with nothing to my name, and now, I will have the incredible privilege to fight for my friends and neighbors as an elected leader. I know that together, we can build a state where each of us has the opportunity to thrive.
Thank you for trusting me to serve as your representative.
— Felipe Sousa Lazaballet (@FelipeForFL) November 4, 2026
Confira os principais trechos da entrevista:
Como foi a sua inserção na política partidária americana?
Eu fiz parte de uma marcha que foi de Miami até Washington D.C., que foram 1.500 milhas [2,4 mil km] a pé até lá. E foi assim que a gente conseguiu, na época, mudar a maneira que o presidente Obama pensava sobre a instituição da imigração e quem deveria ou não deportar. E dessa maneira conseguimos conquistar grandes coisas para o movimento. Ao mesmo tempo, também batalhei bastante para o movimento LGBT+. E sempre tive essa atuação política mais no sentido do lado de fora.
Não do lado de dentro, não da parte partidária, como você mesmo disse. Mas, mais ou menos uns dois anos atrás, quando o presidente Trump foi reeleito pela segunda vez, eu lembro que eu estava no meu carro pensando “uau, a gente vai acabar vivendo nesse mundo com o presidente Trump e o governador DeSantis”, que é o governador daqui da Flórida – um governador muito anti-imigrante, muito contra a comunidade LGBT +, mas muito de direita, que tem realmente criado vários problemas para as comunidades que vivem aqui. E naquele momento eu pensei: “nossa, a gente tem que realmente se expandir, se sacrificar, fazer coisas que a gente nunca fez antes”.
Políticos de outros países, como na Argentina, estão se baseando na mobilização digital e popular do Brasil para enfrentar candidaturas apoiadas por Donald Trump e Marco Rubio. Diante disso, Você percebeu reflexos da eleição brasileira também nos formatos e estratégias de campanha nos EUA?
Um impacto que teve foi uma maneira de “ver diferente” – que a gente pode ganhar contra a direita e que o voto funciona. Ou seja, as pessoas que não votam, saindo para votar, podem realmente criar uma mudança social e foi dessa maneira que a gente conseguiu tantas conquistas eleitorais pelo país inteiro e aqui na Flórida.
Embora a gente tenha perdido as eleições estaduais para os cargos estaduais, nós conseguimos mudar 16 cadeiras da legislatura da Flórida de republicano para democrata.
Flávio Bolsonaro escolheu a Flórida para viver o seu autoexílio porque tem uma rede de apoio. Paulo Figueiredo, por exemplo, doou US$ 10 mil para Maria Elvira Salazar nas últimas eleições, meses antes de ela propor uma lei para penalizar Alexandre de Moraes. O que um representante como você pode fazer para esclarecer se as autoridades dos EUA ajudam ou acobertam ações golpistas contra o Brasil promovidas por este grupo?
Primeiro, queria dizer que, pra mim, obviamente o Brasil é um país soberano e a Justiça do Brasil deve ser respeitada. Pra mim não faz sentido nenhum que os Estados Unidos estejam aceitando uma pessoa que está literalmente fugindo da Justiça no Brasil e, enquanto isso, está deportando uma empregada doméstica, ou seja, não faz sentido nenhum.
Mas, como deputado estadual, os assuntos de migração são federais. Então, eu não tenho uma linha direta para poder realmente causar uma mudança nesse cenário. Porém, eu ainda assim posso reivindicar que os nossos congressistas, que nos representam aqui na Flórida, principalmente em Orlando, tomem essa bandeira – o que, na verdade, já está acontecendo: o nosso congressista Maxwell Alejandro Frost é um congressista muito progressista, muito a favor da democracia do Brasil e já está atuando nisso.
Alexandre Ramagem, ex-chefe da Abin [Agência Brasileira de Inteligência], fugiu para os EUA com o apoio de um minerador ilegal que o hospedou na Florida. Ramagem foi condenado pela tentativa de Golpe de Estado e tem extradição pedida pelo governo brasileiro. Mesmo assim, quando foi preso pelo ICE, por seus laços criminais, ele foi solto em menos de 24 horas por pressão, segundo vários políticos, da Casa Branca. É possível a casa legislativa buscar esclarecer o que houve?
O ICE é uma entidade federal. Bom, claro que a gente pode fazer perguntas. Mas não é a mesma coisa de falar “não, não, não, estou aqui usando o meu poder como congressista para ver o que você está fazendo”. Porém, voltando ao assunto do ICE, aqui no estado da Flórida passaram várias leis anti-imigrantes que estão fazendo com que a polícia local esteja ajudando o ICE. E essa é a razão principal que está causando a quantidade de deportação na Flórida.
Na verdade, a Flórida lidera em número de pessoas que estão sendo deportadas. Por isso que eu digo: a gente tá aqui deportando um pedreiro, ou seja, mandando uma empregada doméstica para uma detenção, que é uma prisão para imigrantes. E, ao mesmo tempo, tem pessoas que cometeram crimes que estão sendo investigadas no Brasil e em outros países também. Não é só o Brasil, ou seja, essas pessoas estão recebendo, na minha opinião, uma ajuda ou até mesmo uma maneira diferente de trabalhar com eles.
No Brasil, alguns políticos cresceram e se elegeram por visões violentas contra a participação de mulheres na política, por exemplo. Isso lembra muito o discurso propagado por Charlie Kirk, que segue sendo referência para políticos aqui do Brasil. E tem brasileiro nos EUA, como o blogueiro Paulo Figueiredo, que tem a mesma narrativa, e é contra o voto feminino. Embora esse tipo de discurso tenha apoio, ele também causa medo. E isso foi importante na mobilização contra a candidatura de Flávio Bolsonaro. Esse medo da perda de direitos básicos, de perda de espaço político, deve ser usado como munição pelos democratas contra o trumpismo?
Olha só, foi tentado dois anos atrás, quando houve a eleição do Trump, onde teve uma conversa muito grande sobre os direitos civis das pessoas que são parte de minorias. Enfim, e não foi o que realmente fez com que as pessoas fossem votar.
O que realmente está fazendo as pessoas votarem aqui é o custo de vida, essa essa ideia de que o sonho americano cada vez está mais difícil de conseguir. O desemprego entre as pessoas jovens, por exemplo. Antigamente você saía da faculdade, você conseguia um emprego, assim, dessa maneira. Hoje em dia você não consegue emprego – ou seja, está tendo uma revolução econômica que está beneficiando os bilionários e está deixando a classe trabalhadora cada vez mais pobre.
Então, isso é o foco principal. E as pautas que realmente estão criando essa “mudança”, né? Que a gente chama desse “tsunami azul” que aconteceu.
Sua mãe é do Ceará. Bem, o Nordeste foi essencial pro resultado eleitoral aqui no Brasil. Você vê influência nordestina, da política no Nordeste e da vivência de quem é de lá, na sua formação política?
Sem dúvida, sem dúvida. Eu cresci no Rio de Janeiro, porém, a minha mãe é cearense, a minha família inteira é cearense, ou seja, cresci comendo baião de dois. E a minha mãe é uma pessoa muito trabalhadora, humilde, e ela me ensinou a diferença do que é o certo e o errado. É daí que vem essa minha vontade de ajudar o próximo, essa vontade de fazer diferença na vida das pessoas que não estão vivendo uma vida muito difícil, essas injustiças sociais que acontecem muito, com certeza. Eu me chamo de “cearoca”.
Ela mora aqui no Brasil ainda?
Sim.
Ela comentou com você sobre as eleições do Brasil?
Olha, não falou muito, né? Porque ela não fala muito, ela não é tão politizada como eu sou. Mas quando eu decidi me candidatar, eu lembro que liguei pra ela, falei o que eu tava pensando em fazer e ela me disse: “meu filho, você não se esquece que nós viemos da poeira”, que é como dizer “não se esquece das suas raízes”. E claro que eu nunca esquecerei.