
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Nas artérias dos Estados Unidos, não corre sangue, mas gasolina e diesel. E, como a história já cansou de esfregar na nossa cara, qualquer solavanco no preço das bombas mexe mais com o humor e com o bolso do estadunidense do que qualquer escândalo político.
Foi exatamente essa dependência química por combustíveis fósseis, somada à teimosia bélica de seu presidente, que transformou a guerra no Irã em um dos principais motores de uma derrota acachapante do Partido Republicano nas urnas.
Desde o primeiro tiro desse conflito, a gestão de Donald Trump é acusada de preferir inventar uma guerra a esgotar os canais diplomáticos para contenção. Dessa forma, atendeu às necessidades de sobrevivência política de outro líder que também pode estar com os dias contados: o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o “Açougueiro de Gaza”.
A estratégia era provocar, à força, uma mudança profunda no regime de Teerã. O plano, contudo, até agora, fracassou. Mataram o aiatolá apenas para ver o seu filho tomar o lugar. Mais do que isso, a já temida Guarda Revolucionária ganhou ainda mais centralidade, força e justificativa para sua narrativa. O regime se adaptou, cerrou fileiras e segue de pé.
Ironicamente, o feitiço virou contra o feiticeiro. É o Irã que acaba de ajudar a promover uma mudança de regime nos Estados Unidos. Não com a queda do governo Trump, mas por meio de uma vitória democrata impulsionada por trabalhadores insatisfeitos com um custo de vida asfixiante. É essa onda que vai emparedar o governo a partir do ano que vem.

É verdade que a caneta do presidente dos Estados Unidos continua muito forte para iniciar guerras e levantar tarifas. Mas Trump terá que lidar com o verdadeiro inferno político que será o controle do Senado e da Câmara pelos seus opositores (bem como a nova maioria de governadores da oposição). Vai governar acorrentado ao próprio caos que ajudou a criar.
Sempre é bom explicar porque falta amor no mundo, mas também interpretação de texto. Não estou elogiando Teerã, um regime violento contra a própria população e que trata mulheres que buscam liberdade como lixo. Não há romantismo na teocracia fundamentalista.
Contudo, é papel da própria população se organizar, resistir e substituir o seu regime. Essa não é uma tarefa terceirizável para uma potência estrangeira cujas reais intenções na região cheiram a interesses petrolíferos e lobby de armas, não a direitos humanos.
Em seus delírios de grandeza, Trump chegou a adaptar o seu famoso lema para defender a queda do governo persa: “MIGA” (Make Iran Great Again), exortando a população iraniana a se insurgir contra os aiatolás.
O mais irônico de toda essa tragédia geopolítica é que, antes que a insurgência fosse efetiva no Oriente Médio, foi a população dos Estados Unidos que se insurgiu contra o seu próprio governo e o emparedou nas urnas.
Ao final, de forma torta, é o Irã que pode ter ajudado a “Make America Great Again”.