
É sintomático. Qualquer economista que ouse furar a bolha ortodoxa que rege a economia brasileira é prontamente ridicularizado pelos guardiões de “o mercado” infiltrados nas redações dos jornalões. Com ares cínicos e falsamente imperturbáveis, hoje tentam pintar André Lara Resende (foto) como um lunático inconsequente, por ter feito uma proposição heterodoxa para livrar o Brasil dos juros pornograficamente altos.
Ocorre que André não chuta. Há tempos enxergou a elevação pura e simples dos juros como fomento à inflação, não como um remédio contra ela. Produziu literatura a respeito e incomodou. Trincou o consenso.
Este jornalista, sem falsa modéstia, foi o primeiro a comentar o artigo de André que agora rende tanta indignação. O economista publicou no Substack “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos” em 25 de setembro. Em 26 de setembro, escrevemos:
“Para dar início ao novo regime fiscal e monetário, propõe André, o Banco Central anunciaria a redução gradual da Selic por 12 meses, ‘para a taxa de crescimento nominal potencial mais um spread transitório de segurança de 2%, isto é, perto de 7,5% ao ano’ — um spread de segurança, a ser periodicamente reavaliado e gradualmente reduzido até ser eliminado. Anunciaria ainda que, se necessário, atuará no câmbio para suavizar toda depreciação mais acentuada devida à possível redução do volume de carry-trade de capitais especulativos. Com reservas internacionais de mais de US$ 350 bilhões, o BC tem munição de sobra para isso. Os dois canais pelos quais a redução do juro poderia pressionar a inflação no curto prazo estão, assim, neutralizados no Brasil: o fiscal, pela dívida curta; o cambial, pelas reservas”.
O titular desta coluna não é especialista em economia, mas sabe diferenciar economistas com honestidade de princípios daqueles a serviço da alta bufunfa. André Lara Resende está no primeiro time. Há um ano, em outubro de 2025, na mesma sexta-feira em que se noticiava em tom alarmante o aumento da dívida do governo, André publicou um alentado artigo no Valor Econômico intitulado “A fábula da fada da dívida pública”. Ele aludia à “fada de Rogoff”, personagem fictícia imaginada pelo economista Kenneth Rogoff cuja varinha teria o condão de reduzir dívidas públicas, e a criticava duramente:

“Sabemos que a vara de condão tem poderes mágicos, mas a macroeconomia, ao contrário da fantasia, exige coerência contábil. Como eliminar parte da dívida sem reduzir a riqueza dos que a detêm? Para fazer desaparecer parte da dívida, é preciso fazê-la desaparecer tanto para o Tesouro – o devedor – quanto para o público que a detém – o credor. A redução da dívida, como sustenta Rogoff, abriria espaço para uma política fiscal mais expansionista, mas esse é apenas o efeito sobre o devedor. A análise, para ser contábil e logicamente consistente, deve também considerar o efeito sobre o credor. Se o primeiro é inegavelmente positivo – mais espaço para política fiscal -, o segundo é incontestavelmente negativo: redução da riqueza financeira privada”.
O efeito recessivo de uma grande redução da riqueza financeira privada não pode ser subestimado, afirmava André. No caso dos Estados Unidos, por exemplo, com cerca de um terço da dívida detida por estrangeiros, o impacto recessivo não se limitaria aos país de Trump – atingiria toda a economia mundial. Como a economia americana representa aproximadamente um quarto da mundial, uma redução de 60% dos 30% da dívida detida por não-americanos significaria uma queda na riqueza financeira global equivalente a 4,5% da renda.
O leitor e a leitora imaginam o que os colunistas e economistas ortodoxos brasileiros sentiram quando leram o artigo de André no Valor?
Não são poucos os escritos de André Lara Resende que atormentam a cabeça dos monetaristas tupiniquins. Sua nova proposição de tratamento dos juros não será, certamente, levada em conta pelo governo Lula, socialmente proativo mas também preocupado em não melindrar “o mercado”. De certa forma, a recusa engrandece o economista.