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Quem é o “Vorcaro paraguaio” que criou o Ueno, banco digital que colapsou

Miguel Vázquez, fundador do banco digital paraguaio Ueno. Foto: Reprodução

O empresário paraguaio Miguel Vázquez, de 36 anos, fundador do Ueno Bank, foi preso na semana em que o Banco Central do Paraguai determinou o fechamento da instituição por problemas de liquidez. A crise atingiu um dos maiores bancos digitais do país, com 2,9 milhões de clientes, e deixou depositantes, estrangeiros e órgãos públicos sem acesso imediato aos recursos mantidos no Ueno.

Filho único, Vázquez assumiu os negócios de microcrédito criados pelo pai, que operava a partir de uma banca de mercado da família. Em entrevista em 2024, o empresário definiu sua posição nos negócios: “O que sou, mais do que um empreendedor, é a terceira geração. Sou um herdeiro que está construindo sobre os ombros de dois gigantes”.

O fundador do Ueno se apresentava como triatleta, participante de provas de Ironman e piloto em corridas automobilísticas.

Ao falar de sua afinidade com o esporte e os negócios no site do banco, declarou: “Adoro velocidade, adoro corridas”. Pessoas próximas relataram que ele coleciona carros esportivos de luxo.

Vázquez transformou a financeira familiar Credicentro no Ueno Bank em 2023 e pretendia levar a empresa do país à Bolsa de Nova York. No Brasil, a derrocada da instituição lhe rendeu o apelido de “Vorcaro paraguaio”, em referência a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O banco tinha valor estimado em quase US$ 500 milhões (R$ 2,7 bilhões) no início do ano. A participação de Vázquez chegou a valer até US$ 375 milhões (R$ 2 bilhões), e o empresário controlava também o Grupo Vázquez, holding com negócios de pecuária a comércio eletrônico, que empregava 6 mil pessoas e registrou receita superior a US$ 100 milhões (R$ 550 milhões) em 2025.

Prédio do Ueno no Paraguai; Foto: Reprodução

Relação com Santiago Peña entrou no centro da crise

O fechamento do Ueno também aumentou a pressão sobre o então presidente do Paraguai, Santiago Peña, que renunciou na quinta (5) diante da ameaça de impeachment. A Câmara dos Deputados passou a examinar a relação dele com Vázquez e os depósitos do governo no banco.

Entre 2019 e 2025, Peña investiu em uma empresa de Vázquez, embora não diretamente no Ueno. Durante seu mandato, o governo depositou mais de US$ 800 milhões (R$ 4,4 bilhões) na instituição, montante que incluía centenas de milhões de dólares de recursos da previdência social paraguaia.

Os depósitos estatais no Ueno cresceram de menos de US$ 100 milhões em janeiro de 2024 para cerca de 20% das reservas financeiras do Estado no sistema bancário no fim de setembro. Antes da liquidação, Peña defendeu a aplicação dos recursos e disse que o banco oferecia juros altos aos poupadores: “Estamos protegendo as economias dos depositantes”.

O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, também deixou o cargo após determinar o fechamento do Ueno. Ele havia trabalhado para Vázquez como diretor da instituição que mais tarde se transformou no banco digital.

O seguro de depósitos do Paraguai cobre valores de até US$ 38 mil (R$ 210 mil) por depositante. Jogadores da seleção paraguaia, patrocinada pelo Ueno, afirmaram que também ficaram sem acesso às próprias contas e disseram: “Fomos vítimas dessa situação, assim como muitas famílias paraguaias. Compartilhamos da mesma indignação”.