
O Senado do Paraguai destituiu o presidente Santiago Peña nesta sexta-feira (6), por unanimidade, em julgamento político desencadeado pela liquidação do banco digital Ueno. Os 44 senadores presentes votaram pela perda do mandato; a Casa tem 45 cadeiras, mas um parlamentar não participou da sessão.
A crise atingiu o governo depois que o Banco Central do Paraguai liquidou o Ueno, que deixou milhões de clientes sem acesso às contas. O órgão regulador identificou problemas em operações de crédito, irregularidades na contabilização de ativos e falta de capital para a instituição continuar em funcionamento.
Peña havia apresentado uma carta de renúncia na quinta-feira (5), dizendo que buscava preservar a estabilidade do país e as instituições democráticas. O Congresso, porém, não aceitou a saída voluntária e manteve o impeachment, que retira do ex-presidente o direito à condição de senador vitalício e à imunidade parlamentar vinculada ao cargo.
O presidente mantinha participação no Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. Deputados da oposição apontaram conflito de interesses e questionaram a atuação do Banco Central, enquanto o Ministério Público abriu investigações criminais que envolvem Peña, o vice-presidente Pedro Alliana e autoridades da instituição reguladora.
Defesa questionou rito e prazo para análise das acusações
A sessão começou com a leitura de um pedido de Peña para adiar sua defesa por 72 horas. Ele alegou que recebeu na noite anterior uma acusação de 15 páginas, acompanhada de cerca de 300 páginas de documentos, e que não teria tempo suficiente para analisar o material. O Senado rejeitou o adiamento por 39 votos a 3, com duas abstenções.
Os advogados Ricardo Preda e Adolfo Ferreiro representaram Peña no Congresso, sem a presença do então presidente. Eles sustentaram que o processo desrespeitou o direito à ampla defesa e afirmaram que a renúncia tornava o julgamento desnecessário. A defesa também negou que as acusações demonstrassem participação direta de Peña nas decisões do banco.
A comissão acusadora rebateu os argumentos. A deputada Rocío Vallejo afirmou que as denúncias se apoiavam em documentos oficiais e acusou Peña de comprometer a credibilidade do Banco Central ao permitir influência de interesses financeiros ligados a seu entorno. Deputados pediram o envio dos documentos do processo ao Ministério Público.
O Banco Central liquidou o Ueno na terça-feira (3), após apontar insuficiência de recursos para cobrir as obrigações da instituição. O banco tinha cerca de 3 milhões de clientes e aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social. Pedro Alliana deve assumir a Presidência para concluir o mandato previsto até agosto de 2028, em data ainda a ser marcada.