
Onze dias depois de perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e oito dias após fugir do Brasil, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi encontrado pelo jornal estadunidense The Washington Post em uma situação peculiar: comendo um donut coberto de chocolate e confeitos coloridos em um escritório praticamente vazio, em Aventura, ao norte de Miami, na Flórida.
A cena ocorreu na quinta-feira (5), pouco antes de o parlamentar seguir para Mar-a-Lago, clube privado do presidente Donald Trump em Palm Beach.
Segundo a reportagem, Flávio observou o doce sobre o balcão de um espaço de coworking, aproximou-se e perguntou: “Posso comer isso?”. Em seguida, começou a comer a rosquinha enquanto olhava para o escritório vazio. O jornal descreveu o episódio ao apresentar a situação do senador, que passou de candidato à Presidência a político refugiado nos Estados Unidos, sem saber quando poderá retornar ao Brasil.
After losing Brazil’s election, sneaking to Miami and proclaiming himself rightful president, Flávio Bolsonaro tells The Post he doesn’t know what he’s going to do now, or next. https://t.co/PdN6NfJIcb
— The Washington Post (@washingtonpost) November 7, 2026
Flávio admitiu que ainda não sabe quais serão seus próximos passos. O senador afirmou que a derrota eleitoral e a mudança repentina de país provocaram um choque físico e psicológico. “Ainda é muito cedo para tomar qualquer decisão definitiva”, declarou. “Mas, obviamente, o que preciso fazer agora é regularizar minha situação migratória e, bem, pensar no que vou fazer.”
O parlamentar chegou aos Estados Unidos após deixar o Brasil clandestinamente, apesar de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes. A ordem foi expedida no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro. Flávio contou que decidiu fugir depois de visitar seu pai, Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por participação na trama golpista após as eleições de 2022.
Questionado pelo Washington Post sobre a rota utilizada na fuga e a possível participação de agentes estadunidenses, Flávio se recusou a fornecer detalhes. Segundo uma autoridade brasileira de segurança ouvida sob anonimato, investigadores apuram se agentes dos Estados Unidos, da Argentina e de Israel participaram da operação. Um ex-integrante do Mossad teria sido visto acompanhando o veículo que transportava o senador em direção à fronteira argentina.
Em entrevista para o The Washington Post, Flávio comentou a reação de Trump com sua chegada aos EUA:
“Ele sabe que o Brasil não vive uma Democracia plena”. https://t.co/dwOgHWJg5w
— Investimentos em Foco (@investeemfoco) November 8, 2026
A reportagem também ouviu aliados de Flávio que criticaram sua decisão de abandonar o Brasil. Um assessor classificou o senador como emocionalmente frágil e considerou a fuga a pior escolha possível para alguém que pretendia contestar o resultado eleitoral. Outro afirmou que o parlamentar estava abalado após perder uma disputa que acreditava vencer. Lula conquistou a reeleição com aproximadamente 4,4 milhões de votos de vantagem.
Mesmo sem apresentar provas, Flávio voltou a questionar a lisura da eleição. O senador também contestou as declarações do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, que afirmou repetidamente que a votação foi legítima. As autoridades eleitorais brasileiras não identificaram irregularidades capazes de comprometer o resultado.
Ao final do encontro, Flávio se preparava para participar de um evento conservador em Mar-a-Lago, onde discursaria para apoiadores de Trump. Antes de deixar o espaço de coworking, porém, ainda precisava terminar o doughnut. Foi com essa imagem do senador diante do balcão, comendo o doce em um escritório vazio nos arredores de Miami, que o Washington Post encerrou seu relato sobre a nova vida do político brasileiro nos Estados Unidos.