
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a inclusão da ex-desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) Sandra Inês Moraes Rusciolelli Azevedo e de seu filho, o advogado Vasco Rusciolelli Azevedo, na lista de procurados internacionais da Interpol. Os dois foram condenados no âmbito da Operação Faroeste, que investigou um esquema de venda de decisões judiciais em disputas bilionárias por terras no oeste da Bahia.
Mãe e filho atuavam em conjunto, segundo as investigações. Sandra Inês utilizava a influência do cargo de desembargadora para negociar decisões favoráveis a empresários do agronegócio, enquanto Vasco funcionava como intermediário entre os interessados e o gabinete da magistrada. O advogado negociava valores, recebia pagamentos em dinheiro vivo e participava das articulações para favorecer grupos envolvidos em disputas fundiárias.
A atuação conjunta também foi identificada em outro esquema dentro do próprio gabinete. Em dezembro de 2024, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou a aposentadoria compulsória de Sandra Inês após concluir que ela mantinha uma estrutura paralela de poder com a participação do filho. Servidores nomeados pela desembargadora eram obrigados a repassar até 75% dos salários, em um esquema de rachadinha.
O CNJ identificou conversas sobre as cobranças desde 2016 e afastou a alegação de que a magistrada desconhecia as exigências. Conforme o voto da relatora Daiane Nogueira de Lira, Sandra Inês preenchia cargos com pessoas de seu círculo pessoal ou em busca de emprego, sem necessariamente exigir experiência técnica compatível. O esquema movimentou cerca de R$ 3,3 milhões em propinas comprovadas.
Na Operação Faroeste, Vasco era o elo entre os supostos corruptores, incluindo grandes produtores rurais e advogados, e o gabinete da mãe. Em uma ação controlada da Polícia Federal e do Ministério Público Federal (MPF), investigadores rastrearam cédulas desde o saque bancário feito por um dos pagadores até as mãos do advogado. A operação terminou com a apreensão de R$ 250 mil em dinheiro vivo no quarto de Sandra Inês.
Após serem presos nas primeiras fases da investigação, mãe e filho firmaram acordos de colaboração premiada com o MPF, homologados pelo STJ em 2021. Em sua delação, Vasco detalhou o funcionamento do esquema e confessou participação direta nas negociações ilícitas e na lavagem de dinheiro.

Pelas acusações relacionadas à venda de decisões judiciais, Sandra Inês foi condenada, assim como o filho, que recebeu pena de 13 anos e 11 meses de prisão em regime inicial fechado. A acusação atribuiu à ex-desembargadora a negociação de decisões favoráveis a uma holding do agronegócio em troca de propina. O advogado Vanderlei Chilante foi condenado a 4 anos, 11 meses e 25 dias por corrupção ativa e lavagem de dinheiro, enquanto o produtor rural Nelson José Vígolo recebeu pena de 4 anos, 1 mês e 20 dias.
Os dois condenados deixaram o Brasil em 21 de setembro de 2026, em um voo com destino a Lisboa, onde desembarcaram no dia seguinte, segundo informações apresentadas pelo MPF. Antes da viagem, respondiam ao processo sob medidas cautelares, incluindo a obrigação de manter endereço atualizado e a proibição de contato com outros investigados. Em outubro, um oficial de Justiça foi ao endereço informado à Justiça, mas o porteiro afirmou que Sandra Inês nunca havia morado no imóvel.
Diante da ausência dos dois e dos indícios de que haviam deixado o país, o ministro Og Fernandes, relator do caso no STJ, assinou em 5 de novembro de 2026 a decisão que determinou a prisão preventiva e a inclusão dos nomes na lista da Interpol. O tribunal também autorizou providências para um eventual pedido de extradição às autoridades portuguesas.