
Quem espera ônibus lotado às cinco da manhã no extremo da zona sul de São Paulo sabe que o sistema não foi desenhado pensando nele. O que talvez não imagine é que o que parece descaso, na verdade, pode ser safadeza.
A Polícia Civil concluiu o inquérito da Operação Vectura Corrupta e indiciou por associação à organização criminosa o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite e outros 12 acusados, pedindo a prisão preventiva de todos. A informação é de Josmar Jozino, do UOL.
Para os investigadores, Leite seria o dono de fato da Transwolff e responderia pela operação de empresas sob controle do PCC. Ele, que foi um das pessoas mais poderosas de Sao Paulo, a ponto de ser chamado de “prefeito”, nega tudo e se diz inocente. Cabe agora ao MP-SP decidir se denuncia e à Justiça, se aceita. Se as suspeitas se confirmarem, o indiciamento é um primeiro passo. Mas está longe de ser suficiente.
Porque o problema não tem um único nome. Entre os indiciados está Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, a empresa pública que deveria fiscalizar as concessionárias. E Paulo Sirqueira Korek Farias, apontado como dono das empresas de ônibus A2 Transportes e Translíder.

A operação também apura suspeitas de corrupção de servidores e de financiamento de campanhas eleitorais pela facção. Até na cadeia o Estado se mostrou poroso: Leite foi transferido sob suspeita de receber regalias de policiais civis, e delegados, um investigador e um carcereiro acabaram afastados.
Nada disso é novidade. A Transwolff já havia sido alvo da Operação Fim da Linha, em 2024, por suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao PCC. Dois anos depois, a pergunta permanece: quem garantiu que esse arranjo sobrevivesse a tantas gestões?
O transporte coletivo de São Paulo e de muitas outras cidades brasileiras foi sendo capturado, ao longo de décadas, por grupos com escasso compromisso com a qualidade do serviço e com o interesse público. Há empresários que tratam concessão como capitania hereditária e políticos que usam linhas de ônibus como moeda de troca eleitoral. Nesse ambiente de baixa transparência e muito dinheiro circulando diariamente pelas catracas, o crime organizado encontrou terreno fértil para lavar recursos e comprar influência. Ou seja, há de tudo ali: do patrimonialismo clássico à facção.
Por isso, a investigação não pode parar em Milton Leite. Com ou sem ele, a estrutura que permitiu a infiltração segue de pé: a relação promíscua entre parlamentares e operadoras, as indicações políticas para a SPTrans, a falta de auditoria independente sobre um sistema que consome bilhões de reais em subsídios públicos todos os anos. Trocar uma peça, por mais importante que seja, não muda a engrenagem.
Um exemplo: o Ministério Público denunciou o vereador paulistano Senival Moura (PT), que foi preso preventivamente no dia 28 de outubro, por suspeita de envolvimento na gestão financeira da Transunião, empresa de ônibus investigada por um suposto esquema de lavagem de dinheiro para o PCC.
Prefeitura e Câmara devem respostas. Quais empresas sob suspeita continuam operando? Quem fiscalizou e quem fez vista grossa? Que outros agentes públicos se beneficiaram? O que impede que a próxima licitação reproduza o mesmo modelo? Por que não revisar os contratos agora diante de tantos indícios?
Polícia, Ministério Público e Justiça têm seu papel. Mas abrir a caixa-preta dos contratos, publicar os custos reais do sistema (aumentam os subsídios, mas a qualidade para o consumidor cai) e garantir controle social sobre ele é decisão política.
Enquanto isso não acontece, quem paga é o trabalhador que espera 40 minutos no ponto, viaja espremido e financia, com a tarifa e os impostos, um serviço que pode estar servindo a outros senhores.