
Carolina Requena, cientista política, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), abre na quarta-feira, 11 de novembro, às 19h, o seminário Cidades, Clima e o Futuro do Brasil, realização do DCM em parceria acadêmica com a FESPSP e patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Na mesa “Quanto custa a cidade resiliente”, no auditório da Escola, na Vila Buarque, ela debate com Allan Mesentier, chefe do Departamento de Desenvolvimento Urbano do BNDES, que representa a diretora Socioambiental do banco, Tereza Campello. A mediação é de Valéria Bomfim, arquiteta e urbanista da FESPSP. A pergunta que organiza a conversa é direta. Adaptar a cidade brasileira, em geral, e São Paulo, em particular, tem preço. Quem decide quanto se gasta, qual a priorização dos territórios e quem será menos impactado?
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Requena desenvolve na USP uma pesquisa sobre cidades e mudanças climáticas. Ela ressalta que, assim como em nível planetário, internamente às cidades há desigualdades e injustiças que premiam com melhor padrão de vida os grupos populacionais mais emissores. Como exemplo, ela cita os usuários de transporte coletivo, que emitem menos poluentes e gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que são punidos com as piores viagens na cidade.
De outra parte, é também conhecido o dado de que espaços mais ricos da cidade produzem muito mais resíduos sólidos que espaços mais pobres, sobrecarregando a destinação de lixo em aglomerações urbanas. “É um dado esperado na economia capitalista e na forma como nossas cidades estão organizadas no Brasil”, diz. “Porém este dado não deve ser naturalizado, ele deve ser questionado e transformado no sentido de maior justiça social e climática, que são coisas inseparáveis.”
Uma conta da política pública
A responsabilidade por essa desigualdade, ela faz questão de dizer, é da política pública e do Estado, com uma parte que cabe ao mercado. “Em última instância, as decisões que a gente toma na cidade são decisões impactadas pelas políticas públicas.” Sem alternativa viável de tempo, conforto, alcance e frequência, diz, ninguém migra para o transporte coletivo, e as cidades brasileiras “pecam demais nessas ofertas”.
Estudar o clima em ciências sociais, explica Requena, é tratar do conflito distributivo embutido historicamente nas cidades brasileiras, na forma como foram construídas e na forma como são usadas. “A injustiça urbana, nesse caso, é que quem onera o sistema viaja melhor”, diz. “As políticas precisam ser pensadas tendo esse conflito distributivo na cabeça.”
A professora chega a esse diagnóstico depois de cerca de quinze anos estudando a dimensão sociopolítica da mobilidade em São Paulo. No mestrado, defendido em 2015 na USP com a dissertação O paradigma da fluidez do automóvel: burocracias estatais e mobilidade em São Paulo, descreveu a lógica pela qual as burocracias municipais de trânsito e de transporte organizaram a cidade para que os carros andassem.
No doutorado, também na USP, com período de pesquisa na Sciences Po, em Paris, e no Centro de Estudos da Metrópole (CEM), analisou os atrasos na expansão do metrô paulistano e o peso das relações entre políticos e empreiteiras nas decisões sobre as linhas. Pelo caminho, investigou segregação sociohabitacional e condomínios residenciais fechados. Fora da universidade, foi chefe de gabinete da Secretaria de Relações Internacionais e Federativas da Prefeitura de São Paulo, entre 2014 e 2016, quando organizou missões da prefeitura e do prefeito a encontros internacionais sobre futuro das cidades, justiça social e adaptação climática.
Floresta e cidade
Na avaliação dela, o país avançou na floresta. “O Brasil tem, nos anos muito recentes, prosperado na questão das emissões na floresta”, diz, referindo-se ao terceiro governo Lula e ao controle das queimadas. “Mas no campo das cidades tem muitos desafios muito grandes, por causa da forma como as cidades foram constituídas e por causa da forma como são governadas. São minoritários os casos de políticas de redistribuição efetiva dos espaços públicos, com iniciativas de conquistas muito bem-vindas porém incrementais.”
No campo das políticas climáticas, as iniciativas são diferentes. Se a primeira parte do raciocínio, a das emissões, é de mitigação, a adaptação exige outra lente. O Plano Clima e a contribuição nacionalmente determinada do Brasil, a NDC apresentada à convenção do clima das Nações Unidas, já reconhecem isso, observa ela, ao incorporar o federalismo brasileiro. As soluções de política pública terão de ser pensadas para o porte e para a localização de cada município.
O pequeno município exposto a uma área de risco não produz receita suficiente para construir sozinho suas alternativas de adaptação. É aí, diz ela, que entram o banco público, a transferência a fundo perdido e os demais mecanismos da Federação. Os médios podem estar em situação parecida. Nos grandes, muitas vezes há receita, mas há também o conflito político entre interesses diferentes, o parque construído que exige obras e a disputa pelo orçamento.
É nesse ponto que ela situa seu trabalho. “Eu faço uma análise sociopolítica dos conflitos que já existem e dos conflitos potenciais que vão aparecer quando a gente precisa prover essa adaptação climática”, diz. “Vai envolver recursos, vai envolver muita decisão política.”
O lixão e o banco
A ilustração mais concreta que Requena oferece é a de um prefeito que precisa encerrar um lixão. Ele sabe fechar um lixão e precisa de pouco dinheiro para isso. Mas os bancos, diz ela, começam a operar a partir de 20 milhões de reais, e o município não tem lastro para tomar esse valor emprestado, porque não consegue demonstrar que paga. Historicamente, lembra, os municípios pequenos já tinham dificuldade com as próprias capacidades administrativas antes mesmo de o clima entrar na pauta.
“Às vezes não é falta de dinheiro. Você está tendo um desencontro entre as normativas que regulam as transferências de finanças e as necessidades e capacidades das prefeituras para que o dinheiro flua”, afirma. “Muitas vezes o problema não é falta de financiamento. É a falta de uma arquitetura de transferência desse financiamento que seja efetiva.”
No ano passado, conta, participou de uma pesquisa encomendada pela Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, entre vários estudos contratados sobre o tema. “É visível pelas encomendas das pesquisas que o governo brasileiro quer entender como é que ele faz a operacionalidade do federalismo climático”, diz. Sem fingir que não há dificuldades grandes, mas querendo chegar na ponta. “A questão do clima, você precisa que o território queira e consiga agir. Não depende só de formulação feita em Brasília.”
A pergunta que o seminário pode responder
Perguntada sobre o que um encontro como esse poderia responder, ela não hesita. Como operacionalizar as políticas públicas. “A NDC brasileira é uma das NDCs que mais se aproxima de um plano de ação”, diz. O Brasil, lembra, é um país federativo, com muita distribuição de poder, e é preciso compreender como a política pública navega do lugar de formulação, Brasília, até os entes subnacionais para implementação e algum grau de formulação própria. “A ideia do federalismo climático é uma ideia bem colocada, mas ela precisa ser traduzida num plano de ação para fazer as políticas acontecerem nos territórios.”
Um ponto joga a favor do Brasil. Numa pesquisa internacional comparada que desenvolve agora, Requena observa que o país tem muito menos problema com seus edifícios do que o Norte global, onde o aquecimento de prédios antigos é um problema de primeira importância. Tudo o que se construir de novo, diz, deve fazer a aposta correta, mas o Brasil precisa converter pouco o parque construído para emitir menos. “Os maiores desafios urbanos são de intervenção na mobilidade urbana e nos resíduos sólidos, que envolvem decisões sobre a coletividade.”
A metrópole que ninguém governa
Requena é coautora, com Carolina Heldt d’Almeida, Miguel Matteo e Vicente Trevas, do capítulo “Governança metropolitana interditada”, do livro São Paulo 2025: riqueza e desigualdades (Editora Sociologia e Política/Alameda, 2026), que revisita meio século depois o São Paulo 1975: crescimento e pobreza, o estudo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) que mostrou uma cidade crescendo sem cuidar de quem a construía.
Os autores discutem, conta ela, como os fenômenos se transformaram nesses cinquenta anos. A metrópole, no caso, é uma cidade vivida como aglomeração urbana, mas com fronteiras entre prefeituras diferentes e uma governança indefinida, quando não conflitiva. O capítulo, resume, discute o fato de “viver uma vida metropolitana, com todas as consequências disso, sem o rebatimento de uma governança que dê conta dessa vida metropolitana”.
O desenho institucional não ajuda. O sistema político e eleitoral, diz ela, põe os atores em competição, e eles têm pouco interesse em cooperar. “Isso é ruim para o clima também.” Reduzido ao essencial, explica, o clima pode ser visto como um sistema de ônus e bônus que não conhece fronteiras. Com a governança fragmentada, “fica difícil direcionar a metrópole no sentido de maior qualidade de vida para seus habitantes ao mesmo tempo em que nos protegemos das mudanças climáticas”.
Esse capítulo é o material de base da mesa Governança metropolitana, que encerra o seminário na quinta-feira, 12 de novembro, às 20h30, com o sociólogo Paulo Silvino Ribeiro e o cientista político Daniel Cara. Requena abre a primeira noite perguntando quanto custa proteger a cidade. A conversa termina perguntando quem manda nela quando chove.
O seminário
São duas noites, com quatro mesas de debate. Em 11 de novembro, às 19h, Quanto custa a cidade resiliente, com Carolina Requena (FESPSP) e Allan Mesentier (BNDES); às 20h30, Plano diretor e clima, com o urbanista Nabil Bonduki e o ex-ministro Paulo Teixeira, as duas com mediação de Valéria Bomfim. Em 12 de novembro, às 19h, O risco tem endereço certo, sobre moradia, crédito e remoção nas áreas de risco, com Marian Bellamy, auditora do Banco Central e conselheira da FESPSP; às 20h30, Governança metropolitana, com exposição de Paulo Silvino Ribeiro e debate com Daniel Cara, as duas com mediação de Desirèe Luíse Lopes Conceição. As mediações são de professores da FESPSP. As mesas são gravadas e publicadas depois no canal no YouTube do DCM.
Serviço
Seminário Cidades, Clima e o Futuro do Brasil
Evento presencial e gratuito
11 e 12 de novembro de 2026, quarta e quinta-feira. Portas abertas às 18h30, com café. Mesas às 19h e às 20h30; encerramento às 21h45
Auditório da FESPSP, Rua General Jardim, 522, Vila Buarque, São Paulo
Inscrição prévia obrigatória; vagas limitadas
Alunos de graduação podem usar o certificado para compor horas complementares
Programação e inscrições: cidadeseclima.org
Realização DCM · Parceria acadêmica FESPSP · Patrocínio BNDES
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Para ler
- O paradigma da fluidez do automóvel: burocracias estatais e mobilidade em São Paulo, dissertação de mestrado, USP, 2015: PDF na Biblioteca Digital da USP
- “Mobility inequalities in a road transport system”, em São Paulo in the Twenty-First Century: Spaces, Heterogeneities, Inequalities (Routledge): página do capítulo
- “A mobilidade paulistana: viária e desigual”, em A metrópole de São Paulo no século XXI (Unesp, 2015)
- “Governança metropolitana interditada”, com Carolina Heldt d’Almeida, Miguel Matteo e Vicente Trevas, em São Paulo 2025: riqueza e desigualdades (Editora Sociologia e Política/Alameda, 2026): sobre o livro, no Outras Palavras