
O economista francês Thomas Piketty afirmou ver uma conexão entre as vitórias eleitorais atribuídas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Partido Democrata nos Estados Unidos e os protestos liderados por jovens na França. Para o pesquisador, os movimentos expressam uma demanda por redução do custo de vida, educação pública de qualidade e proteção social. Com informações do Globo.
Referência nos estudos sobre desigualdade, Piketty classificou trumpismo e bolsonarismo como expressões de uma direita extremista e disse que suas respostas à inflação e ao custo de vida não atenderam às preocupações da maioria da população. “Ignoraram o anseio por bem-estar social básico e sustentabilidade do planeta”, afirmou.
Na França, ele apontou o temor de parte da juventude diante de uma possível vitória de Marine Le Pen na disputa pelo Palácio do Eliseu. Os protestos, segundo Piketty, colocam no centro da discussão o acesso à educação, as políticas sociais e o sucateamento dos serviços públicos.
O economista descreveu uma divisão geracional no país. Na avaliação dele, eleitores de até 35 anos favoreceriam a esquerda por ampla margem, enquanto os maiores de 65 anos tenderiam a dar vantagem a Le Pen. Os estudantes, disse, priorizam desenvolvimento equitativo e educação em vez de debates sobre identidade, segurança e imigração.

Piketty lançou em junho o Relatório de Justiça Global, elaborado com colaboradores do World Equality Lab, da Escola de Economia de Paris. O documento defende uma plataforma econômica internacional voltada à redução da concentração de renda e à ampliação de políticas públicas.
Entre as propostas estão um imposto global sobre bilionários, a criação de um fundo de justiça global e mudanças na ordem monetária internacional. Piketty citou a iniciativa do Brasil e da África do Sul para levar a tributação dos super-ricos ao debate do G20 em 2024, embora a medida não tenha sido aprovada.
Ao tratar do Brasil, o francês avaliou que políticas de transferência de renda e reformas sociais não atingiram os mais ricos de forma suficiente. Para ele, quando a maior parte do custo recai sobre a classe média e a média baixa, cresce o risco de fortalecimento da extrema direita.
Piketty também relacionou os juros altos pagos por países do Sul Global à desigualdade do sistema financeiro. O relatório sugere uma moeda de reserva para comércio e empréstimos internacionais formada por uma cesta com dólar, euro, yuan, rúpia indiana e real, além de uma mudança na governança do Fundo Monetário Internacional.