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O que é isso, companheiro? Por Miguel do Rosário

Professor Túlio na Câmara de Niterói. Foto: Divulgação

Publicado originalmente no O Cafezinho

Os heróis da virada histórica do presidente Lula no segundo turno são os mais de 64 milhões de brasileiros que foram às urnas no dia 25 de outubro para defender a democracia. Entre os protagonistas dessa história, merece destaque a cidade de Niterói.

Foi numa noite chuvosa, no dia seguinte à eleição do primeiro turno, que estudantes da Universidade Federal Fluminense deram um dos primeiros sinais de reação ao cenário desolador que se apresentava ao campo progressista.

Flávio Bolsonaro havia terminado a primeira etapa da disputa com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula. A vantagem da extrema direita parecia anunciar uma batalha quase impossível.

No Rio de Janeiro, o quadro era agravado pela força de Douglas Ruas, cuja eleição para o governo estadual no primeiro turno seria confirmada mais tarde pela Justiça Eleitoral.

Enquanto o desânimo tomava conta de muita gente, estudantes da Faculdade de Direito da UFF se reuniram com professores e representantes de entidades para discutir o que fazer. Daquela conversa nasceu uma manifestação que ganhou as ruas de Niterói em defesa da democracia e contra o retrocesso que representaria uma vitória de Flávio Bolsonaro.

A mobilização cresceu nos dias seguintes. Outros atos vieram, incluindo uma grande manifestação na Praia de Icaraí que reuniu o prefeito Rodrigo Neves, do PDT, e lideranças de diferentes partidos em apoio a Lula.

Rodrigo teve papel importante na articulação dessa campanha no Rio, num esforço coletivo que ajudou a sustentar a virada nacional. A lição é que, com unidade, foco e uma capacidade extraordinária de mobilização, a esquerda pode vencer até as batalhas que parecem impossíveis.

O campo progressista não pode se desmobilizar depois da vitória. Precisa preservar essa unidade, enfrentar os problemas reais da população e começar desde já a se preparar para as eleições municipais de 2028.

O próximo desafio da esquerda e de toda a frente ampla democrática será justamente a disputa pelas prefeituras e câmaras municipais. No estado do Rio de Janeiro, essa batalha será ainda mais difícil com Douglas Ruas no governo estadual e Carlos Jordy no Senado.

Nascido em Niterói e ex-vereador da cidade, Jordy terá uma posição de força para atuar na disputa municipal. Diante desse cenário, a unidade do campo democrático em torno de um projeto progressista para Niterói será ainda mais importante.

O desequilíbrio também aparecerá na disputa pelos recursos de campanha. O PL elegeu 121 deputados federais em 2026, contra apenas seis do PDT, partido de Rodrigo Neves.

A representação na Câmara é um dos principais critérios de distribuição do fundo eleitoral. A diferença entre as bancadas aponta, portanto, para uma vantagem financeira expressiva do PL em 2028, embora ainda não seja possível determinar os valores ou quanto chegará a cada cidade.

O PDT trava uma batalha pela própria sobrevivência partidária. Para superar os efeitos da cláusula de desempenho e preservar acesso ao Fundo Partidário e à propaganda, aprovou seu ingresso numa federação com Solidariedade, PRD e Avante.

O deputado Carlos Jordy. Foto: Divulgação

A ampliação da federação ainda depende da Justiça Eleitoral. É nesse quadro de desigualdade de forças que o campo democrático precisará defender Niterói.

É por isso que causa perplexidade a iniciativa do vereador Professor Túlio, do PSOL, de liderar um pedido de CPI da Educação em Niterói com o apoio de parlamentares de direita.

Para a CPI ser aberta, são necessárias sete assinaturas. O requerimento reúne seis vereadores bolsonaristas e o vereador Professor Túlio, do PSOL, cuja adesão permite alcançar o número necessário.

A assinatura de Túlio é, portanto, decisiva para que a comissão possa se materializar, caso esse conjunto de apoios seja mantido. Ao se juntar aos parlamentares bolsonaristas, o vereador dá viabilidade à iniciativa.

Segundo reportagem de O Globo, a sétima assinatura veio do vereador Fabiano Gonçalves, do Republicanos. Túlio afirmou ao jornal que o pedido seria protocolado, mas que ainda não havia sido registrado no sistema digital da Câmara.

A discussão sobre a CPI antecede a eleição. Os defensores da comissão citam denúncias de famílias, fiscalizações nas escolas e falta de respostas da Secretaria Municipal de Educação e da Fundação Municipal de Educação a ofícios enviados pelos vereadores.

Essas questões merecem resposta e fiscalização séria, como qualquer problema na rede pública. O direito de fiscalizar não está em discussão.

O que precisa ser debatido é a escolha política de abrir uma comissão de inquérito nessa conjuntura e o espaço que ela pode oferecer para uma ofensiva da extrema direita contra uma administração do campo democrático.

Críticas à prefeitura são legítimas. O PSOL não é obrigado a concordar com o PDT, nem com todas as decisões de Rodrigo Neves.

Mas divergência não pode significar falta de discernimento sobre o momento político. Poucos dias depois de uma eleição que exigiu uma mobilização extraordinária do campo democrático para impedir o retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto, é preciso avaliar as consequências de cada movimento.

Nesse cenário, enfraquecer o campo progressista em uma de suas principais cidades seria um presente para os adversários. Niterói tem uma trajetória de políticas públicas, universidades e mobilização democrática que precisa ser defendida e aperfeiçoada.

Isso inclui cobrar melhorias na educação, ouvir famílias e professores e exigir transparência da prefeitura. Também exige responsabilidade para não transformar uma divergência entre aliados em palanque para quem quer derrotar esse projeto de cidade.

Professor Túlio e o PSOL têm todo o direito de fazer oposição, apresentar críticas e cobrar respostas. O apelo é para que reflitam sobre a conveniência dessa CPI e procurem caminhos que preservem a fiscalização sem abrir uma crise política de consequências imprevisíveis.

Niterói ajudou a mostrar ao Brasil que o desânimo podia ser vencido. Não é hora de entregar à extrema direita, por desunião, aquilo que tanta gente foi às ruas defender.