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Direita instrumentaliza caminhoneiros, mas esquerda pode ganhar discurso. Por Helena Chagas

Publicado originalmente no site Os Divergentes

POR HELENA CHAGAS

Posto cobra quase dez reais por um litro de gasolina no DF. Foto Marcelo Casal /Agencia Brasil

Setores da direita estão claramente instrumentalizando a greve dos caminhoneiros – que também parece ser de seus patrões -, jogando nas redes manifestos de entidades que misturam na pauta de reivindicações o diesel ao voto impresso. Estão viralizando, aos montes, vídeos em que integrantes da categoria chamam o governo Temer de comunista (?) e falam em intervenção militar.

É óbvio que não representam o todo, em sua maioria preocupado mesmo com o preço do combustível. Mas, ao mostrar uma situação de quase caos no país, expor a fraqueza do governo e exibir o bate-cabeças dos dirigentes políticos no Congresso, o episódio pode acabar botando algumas azeitonas na empada de Jair Bolsonaro.

Na essência, porém, e mais a médio prazo – o eleitoral – toda essa situação pode fortalecer o discurso dos candidatos à esquerda, se souberem utilizá-lo com competência. Afinal, acima e além de tudo, entrou em xeque a Petrobras e seu papel de estatal monopolista do petróleo. Não exatamente a política de preços, já que o princípio da flutuação de acordo com o mercado internacional tem lógica para muita gente.

Sua aplicação, porém, entra na linha de tiro, junto com a falta de limites para aumentos injustificados na bomba e de uma regulação que leve o varejo a obedecer a flutuação externa quando esta, em vez de subir, baixa o preço. Algo precisa mudar em favor do consumidor, e esse discurso de mudança Cabe muito melhor no figurino da esquerda.

Mais. A esta altura, ninguém está preocupado em poupar o governo Temer, nem muito menos em preservar sua imagem, que já tinha ido para o beleléu antes disso e agora então é que não sai do poço. Mas os candidatos do centro e da direita, defensores da autonomia radical da Petrobras e de sua política de preços, vão ter que fazer algum tipo de correção na rota do discurso, e isso inclui Henrique Meirelles, Geraldo Alckmin e Rodrigo Maia, entre outros.

Até hoje, o PSDB, o DEM e demais partidos da ex-base do governo emedebista vêm defendendo com todas as forças o atual modelo, jogando nas costas das administrações petistas todas as desgraças relacionadas à Petrobras – olha que são muitas, e que, realmente, não dá para fingir que não aconteceu tudo o que aconteceu.

Mas tirar o corpo fora, e começar a pedir, a esta altura, a cabeça do presidente da Petrobras é uma estratégia eleitoreira e, sobretudo, discutível para quem até ontem aplaudia a gestão Pedro Parente na estatal.

Aliás, se há uma lição a ser tirada disso tudo, em meio ao desabastecimento nos hortifruti  e às filas nos postos, é a de que a lembrança de que a Petrobras é uma estatal pode ser bem vinda para quem vai votar em outubro. O primeiro candidato de esquerda que construir um discurso equilibrado e realista a partir daí, mostrando que é possível atender ao interesse público sem montar esquemas de corrupção na empresa, pode sair na frente.