Brexit muda as relações pessoais e imigrantes relatam incertezas. Por Nara Lacerda

Atualizado em 31 de janeiro de 2020 às 11:44
Reino Unido deixa a União Europeia após quase meio século como parte do bloco / Louis. K/ Unsplash/Reprodução

Publicado originalmente no site do Brasil de Fato

POR NARA LACERDA

Mais de três anos após o plebiscito em que 53% da população do Reino Unido votaram por deixar a União Europeia, o Brexit sai do papel e passa a valer definitivamente, mas as incertezas quanto ao que isso significa na prática ainda são a tônica do debate.

Para os imigrantes que vivem na região, o cenário não é diferente. Frente a uma crescente onda conservadora e contrária à presença de estrangeiros, no entanto, é possível ter um vislumbre do que ainda está por vir. A campanha a favor do Brexit sempre abusou de justificativas anti-imigratórias e criou terreno fértil para aumento de casos de xenofobia.

Em julho de 2016, menos de um mês após o plebiscito, um relatório do Ministério do Interior apontava crescimento de 41% nos crimes de ódio, em comparação ao mesmo período do ano anterior. Quase dois anos depois a tendência ainda se mantinha. Um relatório divulgado pelo governo britânico mostrou aumento de 17% nesse tipo de ocorrência entre abril de 2017 e março de 2018.

É fato que o Brexit, inicialmente, não muda muito o processo de imigração de um brasileiro para o Reino Unido, historicamente rígido e controlado. É na vida cotidiana e nas relações pessoais que os primeiros impactos vêm sendo percebidos. Especialistas alertam desde 2016 que a decisão legitimou o racismo na região. A dúvida agora é até que ponto essa tensão e o clima de divisão vão influenciar a política e a economia.

O professor do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Edimburgo, Oliver Turner, afirma que a divisão de opiniões no país é cada vez mais forte e vai causar impactos por algumas décadas. Segundo ele todas as decisões políticas e econômicas que serão tomadas a partir de agora terão o Brexit como contexto e pano de fundo.

Oliver lembra que a onda anti-imigratória foi ponto determinante no resultado do plebiscito que tirou o Reino Unido da União Europeia e ressalta os impactos sociais que a decisão já causa entre estrangeiros que vivem no país.

“O estrago já foi feito. Estudos mostram que a maior parte das pessoas que votou em favor do Brexit tiveram a imigração como motivo. Eles achavam que a imigração estava muito alta e que havia muitos imigrantes no Reino Unido. Então, assim que o resultado veio à tona, o estrago estava feito. Você não tem como voltar atrás nessa mensagem. A decisão foi tomada. Não importa agora o quanto o governo tente assegurar que imigrantes terão seus direitos garantidos, eu acho que muitos imigrantes se sentem um alvo e vai ser difícil para eles se sentirem bem-vindos.”

A brasileira Sofia Vasconcelos vive na Europa desde 2013 e se mudou para Londres em 2016. Mesmo trabalhando em uma startup, ela decidiu voltar para o Brasil por motivos pessoais, mas conta que o Brexit pesou na decisão.

O relato de Sofia não é diferente do que contam muitos Brasileiros que vivem na capital britânica, uma cidade diversa e multicultural, onde os efeitos da onda anti-imigratória não são tão perceptíveis. Ela, no entanto, ressalta que a Inglaterra tem traços de xenofobia históricos e que o Brexit abre espaço para que as manifestações de preconceito sejam reforçadas.

“Muitos amigos meus aqui de Londres tinham a esperança de que os resultados das últimas eleições não fossem favoráveis ao Boris Johnson (Partido Conservador). Mas eu acho que as únicas pessoas que tinham essa esperança são as pessoas que nunca tiveram que passar pela fila da imigração do Heathrow (aeroporto de Londres). Não existe um posicionamento claro do governo sobre o que vai acontecer com os imigrantes. Eu tinha planos de ficar mais tempo, de comprar um imóvel, de estabelecer minhas raízes. Mas eu não sei que tipo de direito eu vou ter aqui no futuro. Eu não me sinto bem-vinda, porque obviamente a maior parte da população não quer imigrantes aqui.”

A percepção de que os imigrantes não são bem-vindos tem se tornado parte da rotina dos estrangeiros no Reino Unido, mesmo para aqueles que estão em regiões mais cosmopolitas e não sentem os efeitos diretamente. Morando na Europa há dois anos, a consultora de recrutamento e seleção, Manaíra Gomes, hoje vive em Edimburgo, capital da Escócia. Ela conta que a maior parte da população escocesa votou contra o Brexit e atualmente mais de 70% acham a saída do Reino Unido da União Europeia uma decisão ruim e que trará consequências.

“Não dá para a gente negar que tem uma situação de Brexit acontecendo. É uma nação que decidiu sair da União Europeia tendo como grande motivo não estar feliz com o número de imigrantes europeus vindo para o Reino Unido. Apesar de eu não ser europeia, eu sou uma imigrante. A gente está no mesmo grupo. O Brexit reflete uma comunidade que não quer imigrantes e pensa que é melhor que as outras. A maioria do Reino Unido não quer imigrantes aqui.”

Retrocesso

Seja qual for a solução do Reino Unido para ajustar conflitos, diferenças e consequências do Brexit na vida dos imigrantes e da população local, especialistas concordam que agora a região está em posição de maior fragilidade frente às negociações com outros países e até mesmo internamente. O ex-ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, usa a expressão “tiro no pé” para definir a decisão de desligamento da União Europeia.

“É um passo atrás. Nós queremos um mundo cada vez mais integrado e as fronteiras cada vez mais abertas. Além disso, eles têm necessidade de mão de obra para trabalhos que muitas vezes os britânicos não fazem. Essas atitudes em geral são um tiro no pé. É uma onda conservadora de um nacionalismo retrógrado.”

O professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB Antônio Jorge Ramalho da Rocha afirma que o desligamento da União Europeia não foi suficientemente planejado e discutido e é fruto de uma jogada do Partido Conservador para aumentar sua coesão. Nas palavras dele os resultados do plebiscito foram apropriados por lideranças populistas e, frente à tendência mundial de mercados cada vez mais interligados, quem sai perdendo do Brexit não é a União Europeia, mas sim o próprio Reino Unido.

“O que está acontecendo é que você tem de um lado uma clara percepção da necessidade de uma governança global e de outro lado algumas das principais economias enfraquecendo essa governança. A comunidade internacional  tem uma série de problemas que só se resolve por meio da negociação e da colaboração e não se vê os países com essa disposição. Há ironias nesse processo. No caso do Brexit em particular, após a votação havia a percepção de que a União Europeia seria enfraquecida e vários países seguiriam o exemplo do Reino Unido. O que aconteceu foi o contrário, aumentou o otimismo em relação a União Europeia em mais de 20% desde 2016. As pessoas se sentem mais ligadas e mais identificadas com o bloco. O próprio Brexit criou um desafio para a União Europeia de se valorizar e isso está acontecendo. Mesmo a França, que criticava tanto os imigrantes, hoje já fala em reformar a União Europeia. Ironicamente o que aconteceu é que a União Europeia se fortaleceu.”

O Reino Unido ingressou na Comunidade Econômica Europeia em 1973. Em 2013, o então primeiro-ministro David Cameron afirmou que realizaria um referendo caso fosse reeleito para que a população opinasse sobre a permanência ou não no bloco. A votação foi realizada em junho de 2016 e, a partir de 2017, o governo britânico estabeleceu uma contagem de dois anos para a conclusão do processo de saída, mecanismo previsto no Tratado de Lisboa. A lei que definiu o desligamento definitivo foi promulgada em 2018 e o prazo final para conclusão do processo terminou em 31 de janeiro de 2020.