Imprensa internacional destaca que Brasil pode se tornar próximo foco mundial de Covid-19

Atualizado em 2 de maio de 2020 às 10:46
Covas abertas no cemitério da Vila Formosa, na Zona Leste de São Paulo — Foto: Reprodução/GloboNews

PUBLICADO NA RFI

Com um sistema de saúde precário, medidas de isolamento social pouco seguidas e números de contágios e mortes subestimados pelo governo federal, o Brasil pode se tornar rapidamente o novo foco mundial da Covid-19, ressalta a imprensa internacional neste sábado (2). Reportagem da agência AFP, publicada em veículos franceses e distribuída para todo o mundo, indica que “o Brasil parece condenado a se tornar o próximo epicentro da crise planetária do coronavírus”, ao registrar “uma velocidade galopante” na propagação dos casos.

“A questão não é saber se o Brasil será um dia o principal foco de contaminações no mundo: já é esse o caso”, explicou à agência Domingos Alves, do Laboratório de Informações sobre a Saúde da USP (Universidade de São Paulo). O coletivo de pesquisadores Covid-19 Brasil, do qual Alves faz parte, estima que o número real de novos casos registrados no Brasil na quinta-feira (30) era nada menos do que 16 vezes superior ao divulgado pelo Ministério da Saúde – 85.646 conforme os dados oficiais, contra 1,3 milhão projetados pelos cientistas.

“A título de comparação, os Estados Unidos, que hoje contam o maior número de pessoas infectadas, acabam de passar oficialmente a linha de 1 milhão”, ressalta o texto da AFP. A matéria lembra que, segundo o Imperial College de Londres, o Brasil tem o índice de contaminação mais elevado do mundo, de 2,8. Atualmente, o país é segundo do mundo com maior número de novos casos (6.209 na sexta-feira, 1˚ de maio), atrás apenas dos Estados Unidos.

“A impossível contagem de mortos”

O jornal Le Monde também dá destaque para “a impossível conta dos mortos por Covid-19 no Brasil”. A reportagem exibe uma equação incompatível entre os dados oficiais de vítimas e o aumento do número de enterros em diversas cidades, como Fortaleza e São Paulo, que estão sendo obrigadas a abrir covas nos cemitérios para sepultar mortos que, ao que tudo indica, faleceram em decorrência da doença.

Especialistas reunidos no Observatório Covid-19 BR sublinharam ao Monde o número recorde de casos de  Síndrome Respiratório Aguda Severa (Sras) registrados nos hospitais do país  – e que podem esconder, na realidade, casos não notificados de coronavírus. Em meados de abril, “o Brasil tinha contabilizado oficialmente 3.364 mortes diretamente ligadas à Covid-19 em 2020, mas também 5.283 mortes por Sras ‘não-especificadas’ ou ‘em curso de investigação’”, explica o jornal francês. A AFP afirma que o número de casos de Sras estaria 1.200% acima do registrado no mesmo período do ano passado.

Números atrasados e presidente negando a gravidade da pandemia

Além disso, pontua Le Monde, os laboratórios brasileiros estão sobrecarregados com testes para identificar a doença. “Às vezes, é preciso esperar de 15 a 20 dias para autentificar uma morte”, o que significa que os dados divulgados cotidianamente pelo governo são “uma fotografia não do instante presente, mas de alguns dias ou até semanas atrás”, frisou o professor Paulo Inácio Prado, também da USP.

Neste contexto, observa Le Monde, “não dá para contar com o presidente Jair Bolsonaro, que continua a negar a gravidade da pandemia”. O jornal lembra que, há poucos dias, o líder brasileiro disse que “não é coveiro” e as mortes fazem parte da vida.