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A Lava Jato e o Sergio Moro da Coreia do Sul. Por Luis Nassif

Publicado originalmente no Portal GGN

Por Luis Nassif

North Korean leader Kim Jong Un shakes hands with South Korean President Moon Jae-in as both of them arrive for the inter-Korean summit at the truce village of Panmunjom, in this still frame taken from video, South Korea April 27, 2018. Host Broadcaster via REUTERS TV ATTENTION EDITORS – THIS IMAGE HAS BEEN PROVIDED BY A THIRD PARTY. NO RESALES. NO ARCHIVES. SOUTH KOREA OUT.

Qualquer semelhança não é mera coincidência:

1. Até final dos anos 80 a Coreia do Sul implementou um projeto de desenvolvimento bem sucedido, comandado pelo general Park Chung-hee, que governou o país ditatorialmente dos anos 60 até 1979, quando foi assassinado.

2. O país ultrapassou a armadilha da renda média. Mas, a partir dos anos 90, foi submetido a uma série de reformas liberais que desmontaram o mercado de trabalho, jogando 40% da força de trabalho na informalidade. Houve um aumento substancial da pobreza e da concentração de renda, retratados no filme “Parasita’, vencedor do último Oscar. O desfecho foi a grande crise de 1996 e 1997 e uma perda brutal do dinamismo da economia.

3. Em 2012, novas eleições foram vencidas pela presidente Park Geun-hye.

4. Historicamente sempre houve uma convivência estreita entre grandes grupos coreanos, denominados de Chaebol, e governo federal. Sua criação foi uma parceria entre Estado e família coreanas. Dai resultaram sucessos globais como a Samsung, Hyundai Motor Company, LG, SK, Hanjin, Hyundai Heavy Industries, Lotte, Doosan, Hanhwa, e Kumho Asiana. Em 2016, surpreendentemente, o Ministério Público passou a investir agressivamente contra a presidente e o grupo Samsung. Executivos da Samsung foram presos fora da Coreia, houve uma parceria radical com a mídia que acabou levando à queda da presidente da República, e sua posterior condenação. Em 2017, o MPF conseguiu a prisão do vice-presidente e herdeiro da Samsung, Lee Jan-Yong. A acusação foi a de ter sido apoiado por um fundo de pensão estatal em uma fusão com a empresa Cheil Industries em 2015. O Lawfare prosseguiu com indiciamento de 31 diretores da Samsung por supostamente violarem leis trabalhistas. Toda a operação foi diretamente coordenada pelo Procurador Geral.

5. Parênteses breve: Em 2017, o PGR Janot encontrou-se com o PGR da Coreia do Sul na reunião do Comitê Executivo da Associação Internacional de Procuradores, na cidade de Busan, Coreia do Sul. O comitê é formado por membros de Ministérios Públicos da Coreia do Sul, Estados Unidos, Bélgica, Rússia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Canadá, Azerbaijão, França e Argentina. No site da IAP, a frase de abertura é:  “Elevando os padrões para promotores em todo o mundo; melhorando a cooperação internacional para combater o crime”. Entre seus objetivos, estão temas como “promover e aprimorar os padrões e princípios geralmente reconhecidos internacionalmente como necessários para o julgamento adequado e independente de crimes”, e todo um decálogo.

6. Foram providenciadas novas eleições em 2017 mas ocorreu o ponto fora da curva, a eleição do de Moon Jae-in, candidato derrotado em 2012, e com forte viés desenvolvimentista. Ele foi eleito prometendo devolver os direitos trabalhistas, retomar políticas desenvolvimentistas, lutar pela unificação com a Coreia da Noite e implantar uma pauta moral mais moderna, com a descriminalização do aborto.

7. Aí sobreveio a crise do Covid-19. Com a economia fortemente dependendo das exportações – elas representam 40% do PIB -, houve uma queda do PIB. A mídia sul-coreana  imediatamente tratou de relacionar a queda do PIB com as mudanças nas leis trabalhistas.

8. No início da pandemia, a taxa de desemprego era de 4,1%. Surpreendendo a muitos, Moon lança o New Deal Sul Coreano, de 10% do PIB de investimento em 4 anos, US$ 160 milhões para dinamizar economia digital, desenvolvimento sustentável, fortalecer as cadeias produtivas internas e gerar 1,9 milhão de empregos, 1,5 milhão dos quais no setor público. No segundo semestre, o PIB caiu 2,3%, mas ainda assim a taxa de desemprego caiu para 3,7%. Mais que isso, Moon providenciou um aumento no salário mínimo, de 2% acima da inflação e decidiu tributar ganhos de capital e ganhos imobiliários. Seu programa foi apresentado como modelar pela OCDE. Graças a assim, o PIB da Coreia do Sul saltou de 12o para 9o lugar, ocupando a classificação do Brasil. E aparentemente estava garantida a eleição de 2022 para seu partido.

9. Como consequência, ampliou-se a perseguição penal por parte do Procurador Geral da República e a mídia coreana passou a dar cobertura diária às denúncias de corrupção e de investimento na imagem do PGR. Ao mesmo tempo, com 35% da população coreana professando a fé evangélica, a mídia passou a explorar pesadamente a pauta moral – investindo contra a decisão de descriminalizar o aborto e boicotando o isolamento social.

10. Para completar o quadro, Moon divulgou uma carta aberta contra o boicote americano à Huawei, acirrando a disputa com os EUA.

11.Na sequencia, o PGR ampliou a ofensiva contra o governo. Descobriu-se que ele estava levantando informações pessoais sobre juízes, para pressioná-los a apoiar as ações dos procuradores contra o presidente Moon. Resultou em suspensão do PGR por dois meses, contra a qual ele reagiu com apoio da imprensa.

10. Agora, há uma contagem regressiva para as eleições de 2022. A suspensão do PGR e o carnaval da mídia colocam o Sérgio Moro coreano na frente nas pesquisas de opinião. Candidato ligados a Moon vêm longo atrás. Nas 51% da população diz que votará em candidatos de pautas conservadoras.

Tudo dependerá do comportamento da economia em 2021.

Esse belo relato – em entrevista com o economista Ualace Moreira, da Universidade Federal da Bahia, autor de uma tese de doutorado na Unicamp sobre a Coreia do Sul – mostra situações muitíssimo parecidas com a brasileira, o uso da religião, das pautas morais, o Lawfare de procuradores, reunidos em associações internacionais, a parceria mídia-mercado-procuradores, as parcerias com procuradores de outros países, especialmente com o Departamento de Estado norte-americano, a campanha negativa contra qualquer pauta social.

Mas, como diriam os idiotas da objetividade, trata-se apenas da confluência de tendências globais, a chamada mão invisível da sociologia.