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A morte da viúva de Pinochet, o candidato Kast e o porvir com Boric. Por Jeferson Miola

Publicado no blog de Jeferson Miola

Lucía Hiriart com Augusto Pinochet
Lucía Hiriart com Augusto Pinochet em cerimônia de aposentadoria militar do ditador, em 1998.
Foto: AFP

O anúncio da morte de Lucía Hiriart, viúva do ditador Augusto Pinochet, inicialmente causou apreensão e surpresa nos meios políticos chilenos.

Não pela morte em si, pois se trata de uma pessoa de 99 anos que padecia de doenças típicas do envelhecimento; mas por ser um fato superveniente que poderia influir na corrida eleitoral.

A cronologia do evento contribuiu para isso: a morte ocorreu a 72 horas do término do 2º turno da eleição e foi comunicada publicamente por volta das 15 horas desta 5ª feira [16/12], a cerca de 3 horas dos comícios de encerramento das campanhas.

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Nos momentos imediatos à notícia da morte, especulou-se se o candidato de ultradireita José Kast poderia se beneficiar com eventual sentimento de comoção e consternação.

Afinal, Kast é um defensor ferrenho da ditadura Pinochet, uma das mais sanguinárias da história. E Kast também se reivindica como uma espécie de sucessor histórico do pinochetismo. A morte da viúva, porém, pode impactar negativamente a candidatura dele.

No início da campanha, Kast declarou ser o destinatário do voto do Pinochet caso o facínora ainda estivesse vivo. De acordo com o ativista de direitos humanos Raoni Beltrão, brasileiro que reside na capital Santiago, esta declaração de Kast custou-lhe a queda dos índices de votos nas pesquisas da época.

Setores radicalizados do Partido Republicano entendiam que Kast deveria se compadecer publicamente com a morte de Lucía Hiriarti e ir ao funeral. A expectativa neste sentido era grande – uma das porta-vozes da campanha dele, Macarena Santelices, é sobrinha-neta de Pinochet.

O candidato, porém, agiu com pragmatismo eleitoral e buscou cinicamente se distanciar do pinochetismo. Ele afirmou que “não conhecia a senhora Lucía”, que não é “próximo da sua família” e, em razão disso, não irá ao funeral.

Este simulacro de distanciamento do Kast em relação ao pinochetismo não lhe propiciará votos de novos setores sociais; mas, ao contrário, poderá causar-lhe prejuízos eleitorais ante os setores radicalizados da ultradireita que lhe cobravam gesto em outra direção, como mencionado anteriormente.

Numa eleição parelha, disputada voto a voto, como mostram as pesquisas e trackings das campanhas, a decepção nas hostes da ultradireita pode causar prejuízos eleitorais irrecuperáveis.

O colaboracionismo da família Kast com a ditadura Pinochet

A tentativa do candidato Kast de se desvincular do pinochetismo se esfumaça totalmente quando se resgata o histórico de colaboracionismo da sua família com a ditadura sanguinária de Augusto Pinochet.

O pai de José Kast [ex-oficial do exército nazista], assim como seus irmãos mais velhos, são acusados de cumplicidade e colaboração com o desaparecimento de pelo menos 70 pessoas – entre camponeses, comerciantes, professores e estudantes – na comunidade de Paine durante a ditadura.

A comuna de Paine singulariza de modo emblemático a monstruosidade e a atrocidade da ditadura pinochetista por ser o território como o maior número de vítimas proporcionalmente à população local.

A família Kast apoiou logisticamente o regime de terror com mantimentos para os militares e carabineiros e com o empréstimo de veículos para transporte de perseguidos pelo regime. Trabalhadores da empresa de carne seca Bavária, de propriedade da família Kast, também estão entre as vítimas de tortura, mortos e desaparecidos.

No período da ditadura a família conquistou importante influência política. Miguel Kast, irmão do candidato José Antonio, foi ministro de Planejamento, ministro do Trabalho, presidente do Banco Central e consultor da DINA – o temível serviço de inteligência chileno [ver wikipedia].

Memória e verdade e o passado que não passa

No último 19 de novembro José Gabriel Palma, renomado economista chileno e professor das Universidades de Cambridge e de Santiago de Chile, publicou a Carta aberta a José Antonio Kast sobre os crimes de Paine.

Nela, José Gabriel Palma faz um inventário pormenorizado do colaboracionismo da família Kast com o terror de Estado e com a prática de crimes de lesa-humanidade.

José Gabriel Palma pergunta a Kast se ele “não pensa que é uma vergonha nacional que depois de todos estes anos ainda não existam condenações pelo ocorrido em Paine”, e termina a Carta afirmando que “o grande problema do Chile é que por este tipo de aberrações o passado [ainda] não foi passado”.

Evidentemente o ultradireitista José Antonio Kast jamais conseguiria responder à pergunta de Gabriel Palma.

O candidato Gabriel Boric, da Frente Ampla, por sua vez, responde a José Gabriel Palma mostrando que o Chile tem um encontro marcado com o futuro, porque ele sim, assim como a esquerda, os democratas e os humanistas chilenos honram a memória e a verdade históricas. Para que nunca mais aconteça!

Por twitter, Boric declarou: “Lucía Hiriart morre impunemente em que pese a profunda dor e divisão que causou ao nosso país. Meus respeitos às vítimas da ditadura da qual ela foi parte. Não celebro a impunidade nem a morte, trabalhamos pela justiça e vida digna, sem cair em provocações nem violência”.

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