EUA e Rússia são países capitalistas disputando terreno. Por Rudá Ricci

Atualizado em 27 de fevereiro de 2022 às 11:11
Putin

Percebi muita confusão a respeito dessa história que, para mim, é um descontrole e erro grosseiro de Putin. Vou resumir algumas teses:

TESE 1: Putin enfrenta os EUA como polo contrário ao eixo expansionista ocidental

Não é bem assim. A Rússia não é mais socialista e também adota políticas expansionistas. Faz parte da cultura deste país. Portanto, EUA e Rússia são dois países capitalistas disputando terreno.

TESE 2: Putin defende o seu território contra a OTAN

Não é bem assim. Quando invadiu a Ucrânia, alargou a fronteira com o domínio da OTAN. Esperava-se que ele defendesse os territórios separatistas do leste da Ucrânia. Foi além. Quando ameaçou a Suécia e a Finlândia, piorou.

Afinal, qual é a fronteira segura para a Rússia? Ucrânia, Finlândia, Suécia? Putin fez um lance de truco e está prestes a enfrentar um “6” como resposta. E aí? Pior: vem exorbitando seu direito ao se imiscuir na soberania de outros países. Suas ameaças têm nome: expansionismo.

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TESE 3: a Rússia se aproveita da “decadência do ocidente”

Além de ser uma tese megalomaníaca (seria o mesmo que alguém afirmar que todo o Oriente é atrasado e é preciso aproveitar esse momento antes que a China se torne a maior potência mundial), trata-se de uma tese antiga.

Tem gente dizendo que foi elaborada por um general qualquer da Rússia. Não é verdade. Esse debate tem início quando começa a crítica às teses “ocidentalistas” de Pedro, o Grande, que considerava a Rússia atrasada em relação ao Ocidente.

Surgem naquele momento as teses “eslavófilas”, que reafirmaram a identidade russa. É justamente aí que emerge a crítica ao “individualismo materialista decadente do ocidente” que valoriza a Rússia como cultura única.

Hoje, o discurso eurasiano é muito forte no governo Putin. Há, com efeito, outras teses Tradicionalistas (ultranacionalistas e de direita) que povoam seu governo. Mas a tese ainda dominante é de se pensar a Rússia como síntese da Europa e Ásia. A tese “nova” é do século XVII.

Enviaram outras ilações estapafúrdias. Eu afirmei que era possível que a Rússia de Putin estivesse tentando aumentar seu domínio oriental e tentando se equiparar à força da China pelas armas. E surgiu um contra-argumento afirmando que a China não tem conflitos fronteiriços.

Em outras palavras, a tensão na região da Caxemira e com Taiwan seria uma mera discussão entre bêbados durante o Carnaval.

Mas fazer o quê? Num mundo em que Pepe Escobar (que qualquer pessoa bem-informada sabe de seus vínculos com o governo Putin) é fonte confiável, vale até mesmo ouvir o que o Papai Noel de shopping tem a dizer sobre a quadratura do círculo. 

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Rudá Ricci
Cientista político formado em Ciências Sociais pela PUC-SP, com mestrado em Ciência Política pela Unicamp. Doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. Presidente do Instituto Cultiva em Minas Gerais