A abelheira da USP que afugenta os machos assustados. Por Moisés Mendes

Atualizado em 8 de dezembro de 2023 às 21:33
Clarice Lispector em foto em preto e branco, séria
Clarice Lispector (1920-1977) – Reprodução

Tem muito marmanjo fugindo do debate da hora, por temer as reações das mulheres e a condenação ao cancelamento.

A abelheira do momento é a decisão da Fuvest de incluir apenas obras de mulheres na lista de livros recomendados para o vestibular da USP de 2026, 2027 e 2028.

Os autores homens só voltarão no vestibular de 2029. É uma tentativa de causar, como se dizia antigamente, para que as mulheres – Clarice Lispector (foto), Conceição Evaristo, Ana Djaimilia Pereira de Almeida, Julia Lopes de Almeida, Lygia Fagundes Telles e Nísia Floresta, entre outras –, mereçam mais atenção.

Mas as mulheres escritoras dependem da invisibilidade de grandes autores no vestibular para que possam aparecer? É assim mesmo?

Que culpa os escritores têm se as escritoras nunca ganharam a visibilidade que merecem? Vão punir os autores pelo machismo histórico dos elaboradores de listas, apostilas, vestibulares, livros e planos escolares?

A literatura vai virar uma questão de gênero? E se esse tipo de atitude se disseminar por outras artes? Se exposições decidirem ter apenas obras de
mulheres? Se o Oscar passar a excluir os homens das listas de premiação?

Já tem gente se perguntando até se homem pode participar da discussão. O que não pode ser interditado é o debate que a própria decisão propõe, ou estaremos diante de uma lacração com efeitos imprevisíveis.

Essa é uma pauta claramente de esquerda, da qual a extrema direita irá tirar proveito apenas para o deboche, até porque a leitura não seja um hábito desse contingente.

Compartilho abaixo texto do site da USP com a decisão e algumas reflexões.

Livros escritos por mulheres vão compor lista obrigatória da Fuvest em 2026

A Fuvest, responsável pelo vestibular para ingresso na USP, divulgou uma nova lista de leituras obrigatórias para o exame a partir de 2026. A nova lista é composta somente de mulheres autoras de língua portuguesa entre as edições de 2026 e 2028 do exame, contemplando as escritoras brasileiras e estrangeiras Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Djaimilia Pereira de Almeida, Julia Lopes de Almeida, Lygia Fagundes Telles, Narcisa Amália, Nísia Floresta, Paulina Chiziane, Rachel de Queiroz e Sophia de Mello Breyner Andresen.

A renovação se justifica pela necessidade de se valorizar o papel das mulheres na literatura, não apenas como personagens, mas como autoras. “Muitas delas foram alvo de décadas de invisibilidade pelo fato de serem mulheres”, ressalta a presidente do Conselho Curador da Fuvest e vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda. Aluísio Cotrim Segurado, Pró-Reitor de Graduação da USP e membro do Conselho da Fundação, acrescenta: “É uma mudança corajosa, necessária, mas que não se afasta da qualidade que a lista da Fuvest sempre teve”.

A partir de 2029, autores da literatura brasileira e de língua portuguesa voltam a aparecer na lista: Machado de Assis, Erico Verissimo e Luís Bernardo Honwana foram os escolhidos. Este será um ano em que a lista conterá quatro obras escritas por autoras e autores negros. Além disso, Incidente em Antares, de Erico Verissimo, foi uma obra escolhida por se tratar de um representante da literatura fantástica, uma novidade no vestibular.

Segundo Gustavo Ferraz de Campos Monaco, diretor executivo da Fuvest, a escolha pelo predomínio de autoras mulheres na nova lista não nega a literatura feita por homens, que é e continuará a ser essencial: “Trata-se, antes, de trazer a público e valorizar o que, muitas vezes, ainda não se conhece, e de destacar a importância das mulheres no cânone, em diferentes períodos históricos, nos mais variados gêneros literários, com perspectivas diversas. Esta é, assim, uma lista que posiciona a literatura como uma ferramenta de reflexão e transformação social”.

Para Monaco, o fato de a nova lista apresentar obras a partir do período do Romantismo em diante não impactará a maioria dos candidatos que prestarão o vestibular pela primeira vez na edição de 2026: “Esses estudantes estão terminando o primeiro ano, fase em que a análise literária escolar costuma avançar até o Arcadismo. Romantismo e Realismo são os principais movimentos literários analisados no segundo ano do ensino médio e, assim, as escolas terão tempo de introduzir essas obras ainda no curso de 2024”.

As obras de leitura obrigatória para o vestibular de 2025 continuam as mesmas já anunciadas pelos organizadores da prova: Marília de Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga), Quincas Borba (Machado de Assis), Os Ratos (Dyonélio Machado), Alguma Poesia (Carlos Drummond de Andrade), A Ilustre Casa de Ramires (Eça de Queirós), Nós Matamos o Cão Tinhoso! (Luís Bernardo Honwana), Água Funda (Ruth Guimarães), Romanceiro da Inconfidência (Cecília Meireles) e Dois Irmãos (Milton Hatoum).

Obras de leitura obrigatória 2026-2029

2026
• Opúsculo Humanitário (1853) – Nísia Floresta
• Nebulosas (1872) – Narcisa Amália
• Memórias de Martha (1899) – Julia Lopes de Almeida
• Caminho de pedras (1937) – Rachel de Queiroz
• O Cristo Cigano (1961) – Sophia de Mello Breyner Andresen
• As meninas (1973) – Lygia Fagundes Telles
• Balada de amor ao vento (1990) – Paulina Chiziane
• Canção para ninar menino grande (2018) – Conceição Evaristo
• A visão das plantas (2019) – Djaimilia Pereira de Almeida

2027
• Opúsculo Humanitário (1853) – Nísia Floresta
• Nebulosas (1872) – Narcisa Amália
• Memórias de Martha (1899) – Julia Lopes de Almeida
• Caminho de pedras (1937) – Rachel de Queiroz
• A paixão segundo G. H. (1964) – Clarice Lispector
• Geografia (1967) – Sophia de Mello Breyner Andresen
• Balada de amor ao vento (1990) – Paulina Chiziane
• Canção para ninar menino grande (2018) – Conceição Evaristo
• A visão das plantas (2019) – Djaimilia Pereira de Almeida

2028
• Conselhos à minha filha (1842) – Nísia Floresta
• Nebulosas (1872) – Narcisa Amália
• Memórias de Martha (1899) – Julia Lopes de Almeida
• João Miguel (1932) – Rachel de Queiroz
• A paixão segundo G. H. (1964) – Clarice Lispector
• Geografia (1967) – Sophia de Mello Breyner Andresen
• Balada de amor ao vento (1990) – Paulina Chiziane
• Canção para ninar menino grande (2018) – Conceição Evaristo
• A visão das plantas (2019) – Djaimilia Pereira de Almeida

2029
• Conselhos à minha filha (1842) – Nísia Floresta
• Nebulosas (1872) – Narcisa Amália
• D. Casmurro (1899) – Machado de Assis
• João Miguel (1932) – Rachel de Queiroz
• Nós matamos o cão tinhoso! (1964) – Luís Bernardo Honwana
• Geografia (1967) – Sophia de Mello Breyner Andresen
• Incidente em Antares (1970) – Erico Verissimo
• Canção para ninar menino grande (2018) – Conceição Evaristo
• A visão das plantas (2019) – Djaimilia Pereira de Almeida

Publicado originalmente no Blog do Moisés Mendes

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