A agonia do euro e o rapto da Princesa Europa

A moeda de dois euros da Grécia: parece, mas não é

 

 O texto abaixo foi publicado na revista Exame.

Um jornalista francês, no calor caótico e anárquico dos primórdios da Revolução de 1789, descreveu o desgoverno que tomou conta da França quando, isolado o rei Luís 16 em Versalhes, o poder se fragmentou quase que infinitamente. Nas reuniões dos novos líderes, segundo ele, a impressão que se tinha era a de que ali, naquele grupo, estava uma pessoa cuja perna direita queria ir para um lado e a esquerda para o outro, cuja boca desejava falar mas cujos olhos exigiam repouso.

É mais ou menos este o cenário com que a Europa entra em 2012. No apogeu de uma crise econômica épica, em que o euro corre sério risco de vida,  a Europa vê seus  líderes confabulando freneticamente – mas com divergências que transparecem até nos sorrisos plásticos com que eles se apresentam diante dos fotógrafos.  Já se fala nas mais variadas línguas da região, como aconteceu no Brasil dos anos 1980, numa “Década Perdida” para a Europa. Suas três principais potências – Alemanha, Reino Unido e França –  parecem, reunidas,  aquela pessoa imaginária criada pelo jornalista francês no passado revolucionário francês. Cada qual quer fazer uma coisa que não combinada em nada com o que os demais pretendem.

Merkel e Sarcozy, ou Merkozy, como os jornais os têm chamado, estão sempre juntos. Mas isso não significa que as coisas estejam bem entre os dois. Não é à toa que o sobrenome de Merkel aparece na frente no apelido da dupla. Em tempos duros, fala mais alto quem tem mais dinheiro —  e, neste caso, é Merkel. A Alemanha é a maior economia européia e, provavelmente, também a mais ajustada aos novos tempos. Os alemães têm um modelo econômico que guarda grandes similaridade com a fórmula vitoriosa chinesa: o país não se desindustralizou nas últimas décadas, ao contrário da maior parte das potências ocidentais,  e tem um formidável superávit comercial.

Não bastasse isso, a Alemanha tem uma disciplina exemplar. O fantasma da superinflação dos anos 1920 está vivo na memória alemã. Em pouco tempo, naqueles dias, o mesmo dólar que valia 10 marcos passou a ser cotado na casa dos trilhões. Uma das consequências desse descalabro é que as portas acabaram se escancarando para a demagogia nacionalista e racista de Hitler. Merkel, no apogeu de sua estampa maternal aos 57 anos, resistiu germanicamente a todas as pressões para que a Alemanha abrisse os cofres para socorrer os países em apuros. Por isso, passou a ser chamada de Fraulein Nein – Senhora Não.

Uma análise favorável do atual quadro é que o novo tratado europeu empurra todos os países rumo às mesmas virtudes econômicas da Alemanha. Para a Europa, é sem dúvida melhor parecer no conjunto com a Alemanha do que com a Grécia ou Portugal. Mas, no lado menos brilhante das coisas, também os outros países têm o seu fantasma – a Alemanha. Desde a era dos bárbaros, os alemães têm, de tempos em tempos, mostrado aos vizinhos um apetite voraz por brigar, conquistar e dominar.

Hitler foi a última manifestação desse apetite, mas não a única, definitivamente, ao longo da história. O incômodo dos franceses com o predomínio de Merkel na parceria Merkozy pode se traduzir na derrota de Sarkozy nas eleições presidenciais de 2012. Um comercial da Renault que está no ar mostra o estado de espírito do francês médio.  Ironicamente, a narração é acompanhada de legenda em alemão. Se o euro sobrevive ou não está em aberto. Nas casas de apostas londrinas, tem crescido o número de gente que arrisca que não.

Criado em 2002, o euro já nasceu com estranhezas. Foi acordado que as moedas teriam numa face um mapa da Europa e, no outro, algo que fosse da escolha de cada país. A Grécia, por exemplo, optou, nas moedas de um e dois euros, por colocar um touro e uma jovem. “Parece que é uma ode à harmonia entre homens e animais”, diz Mary Beard, professora de Assuntos Clássicos em Cambridge. “Mas na verdade é um rapto – Zeus, o Rei dos Deuses, transformado em touro voador, roubando a Princesa Europa, aterrorizada, de sua cidade natal.” A escolha grega parece não fazer muito sentido – assim como muitas outras coisas numa moeda que amanhece em 2012 sem que ninguém saiba se chega a 2013.

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