“A alma do jornal reside em sua simpatia pelos oprimidos”: como a máxima de Pulitzer pôde ser tão subvertida pela imprensa brasileira? Por Paulo Nogueira

Os oprimidos que se danem
Os oprimidos que se danem

“Acima do conhecimento, acima das notícias, acima da inteligência, o coração e a alma do jornal residem em sua coragem, em sua integridade, sua humanidade, sua simpatia pelos oprimidos, sua independência, sua devoção ao bem estar público, sua ansiedade em servir à sociedade.”

Estou lendo um perfil de Joseph Pulitzer e me detenho na frase acima.

É uma reflexão que tem 150 anos de existência — e que, como tudo que é sábio, guarda uma atualidade completa, fresca, revigorante e inspiradora.

É uma receita perene de bom jornalismo.

E então me ocorre a fatal comparação. Os jornais brasileiros são a completa negação de Pulitzer.

Simpatia pelos oprimidos? Esqueça.

Devoção à causa pública? Esqueça.

Ansiedade em servir à sociedade? Esqueça.

Você inverte o enunciado pulitzeriano e encontra a mais perfeita definição do jornalismo nacional.

As corporações jornalísticas servem apenas a si próprias e a classe que representam — a plutocracia.

Dizer que a visão de Pulitzer é romântica é uma tolice. Ele não foi apenas o jornalista mais inovador da história. Foi, também, um empreendedor de extremo sucesso.

Sua lógica como empreendedor no jornalismo era irretocável: “Circulação significa anúncio, anúncio significa dinheiro, dinheiro significa independência.”

Sua visão de jornalismo é ainda hoje perfeita. “Para se tornar influente, um jornal tem que ter convicções, tem que algumas vezes corajosamente ir contra a opinião do público do qual ele depende”, afirmou.

Como jornalista, foi Pulitzer quem rompeu com a tradição de publicar as notícias na ordem cronológica. Ele estabeleceu a hierarquia no noticiário. Estava inventada a manchete, assim, bem como a primeira página.

Era um jornalista brilhante, ambicioso, e inevitavelmente acabou tendo seu próprio jornal, World, o maior em sua época.

E de novo a comparação me ocorre: por que os jornais brasileiros são o contrário?

Se eles seguissem alguns postulados de Pulitzer — não digo todos, que é coisa de gente grande, mas pelo menos alguns — o Brasil seria um país muito melhor. Digamos: a simpatia pelos oprimidos, que figura no topo das prioridades de Pulitzer.

Não seríamos um país tão assombrosamente desigual. Poderíamos ser talvez, como sonha o DCM, uma grande e ensolarada Escandinávia, uma sociedade próspera, igualitária, feliz.

Estaríamos livres do que Rousseau chamou de “extremos de opulência e miséria” que nos rebaixam e nos humilham.

Mas não.

Você abre um jornal brasileiro, qualquer um, e logo tem um choque de realidade. Pode ser uma revista. Ou vê um telejornal. Ou ouve uma rádio. É tudo anti-Pulitzer.

Por isso somos o que somos.

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