A Amazon do tráfico: como eu comprei drogas na ‘Deep Web’, a Internet que você não vê

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Caros agentes do FBI, meu nome é Carole Cadwalladr e em fevereiro deste ano fui convocada para investigar a chamada “Dark Net” para este jornal. Eu baixei o Tor no meu computador, o navegador anônimo desenvolvido pela Marinha dos EUA, pesquisei “drogas da Rota da Seda” (drugs on Silk Road) e depois recortei e colei este link http://silkroadvb5piz3r.onion/ no campo de endereço.

E bingo! Lá estava: Silk Road, o site que o FBI fechou na quinta-feira, quando prendeu um americano de 29 anos de idade, em San Francisco. Era o mais notório mercado da web.

A “Dark Net” ou “Deep Web”, a parte oculta da internet, invisível para o Google, pode soar como um submundo inacessível e obscuro, mas a realidade é que ele está aí, a um clique de distância, no final do seu mouse. Levei cerca de 10 minutos pesquisando e dando download até encontrar e acessar o site naquela manhã de fevereiro, e ao chegar à home page da Rota da Seda foi como tropeçar em um universo paralelo, um universo onde o eBay tinha sido tomado por cartéis internacionais de drogas e uma Amazon que oferece livros, DVDs e alucinógenos.

As drogas eram apenas mais um mercado, e na Silk Road era um mercado exposto, diferenciadas por preço, qualidade, ponto de origem, supostos efeitos e opiniões de usuários de luxo. Havia categorias de “cannabis ” , “dissociativos”, “ecstasy”, “opióides”, “prescrição”, “psicodélicos”, “estimulantes” e, meu favorito, “precursores”. ( Se você assistiu “Breaking Bad“, saberá o que é o material que você precisa para fazer determinadas drogas e por que Walt teve de roubar trens e assaltar fábricas por causa de algumas. Ou, se ele soubesse da Silk Road, apenas clicaria em um link de seu navegador).

E, assim como no eBay, havia classificação por estrelas para os vendedores, feedback detalhado, garantias de atendimento ao cliente, um sistema de depósito e um fórum movimentado no qual os usuários postavam dicas. Olhei no fórum de cannabis do Reino Unido, que teve 30 mil postagens, e um vendedor chamado JesusOfRave foi recomendado. Ele teve retorno de 100%, prometeu embalagem especial e vangloriou-se das excelentes opiniões dos clientes: “O nível de atendimento ao cliente faz você muitas vezes esquecer que este é um mercado ilegal de drogas”, disse um deles.

E assim eu pedi “1g de Manali Charras [cannabis] (entrega gratuita no Reino Unido)”, custando 1,16 bitcoins (a “moeda local” então valia cerca de £ 15). Eu usei um nome falso com o meu endereço, e dois dias depois um envelope chegou em minha porta com um endereço em Bethnal Green Road, East London, e um pequeno pacote embalado a vácuo com um torrão de maconha.

Ele ainda está em seu envelope original na gaveta da minha escrivaninha.

Pouco menos de um mês atrás, eu fiquei intrigada ao ver que a revista Forbes tinha conseguido uma entrevista com o “Infame Pirata Roberts”, o administrador do site. E então, na semana passada, veio a notícia de que o Infame Pirata Roberts tinha 29 anos de idade, se chamava Ross Ulbricht, cursava pós-graduação em física na Universidade do Texas física e, de acordo com documentos do FBI, não apenas comandava o site – que alega ter rendido US $ 80 milhões -, mas havia contratado um assassino por US $ 80.000 para apagar um funcionário que tentou chantageá-lo.

Se isso soa muito forçado, papéis apresentados na quinta-feira mostraram que ele tentou um contrato com uma segunda pessoa. O assassino contratado por Ulbricht era um agente federal. Era um final absurdo, surpreendente, de um crime, para um site absurdo e surpreendente.

Exceto, é claro , que não era o fim de tudo. Há dois outros sites semelhantes já em funcionamento – Sheep e Black Market Reloaded – que têm visto uma alta dramática de usuários nos últimos dias, e outros irão certamente aparecer. Porque o que o Silk Road fez pelas drogas era o que o eBay fez por artigos usados e o Airbnb fez por hospedagem: criou um sistema de confiança que beneficiou compradores e vendedores.

Nicholas Christin, professor da Carnegie Mellon University, em Pittsburgh, Pensilvânia, que realizou seis meses de pesquisa no site, disse que o que mais o surpreendeu foi o quão “normal” era. E, embora muitas pessoas estivessem alarmadas com a perspectiva de seus filhos adolescentes comprarem drogas online, a Silk Road era muito mais profissional, regulada e controlada do que o mercado off-line.

O que é evidente na entrevista do pirata Roberts com a Forbes e os comentários que ele fazia no fórum do site é que a motivação por trás do site não parece ter sido ganhar dinheiro (embora claramente ele tenha feito cerca de US$ 1,2 bilhão ), ou a crença de que as drogas são a chave para algum tipo de auto-realização mística, mas que o estado não tem o direito de interferir na vida dos indivíduos. Um dos detalhes que permitiram ao FBI rastrear Ulbricht foi o fato de que ele “favoritou” vários clipes do Ludwig von Mises Institute, uma organização libertária baseada no Alabama, dedicada a promover o que é conhecido como a escola austríaca de economia. Anos mais tarde, o Pirata Roberts citaria a mesma teoria no fórum do Silk Road.

“O que estamos fazendo não é vender drogas ou alimentar os traficantes”, disse o Pirata Roberts na entrevista à Forbes. “Trata-se de defender os nossos direitos como seres humanos e nos recusarmos a nos submeter quando não fizemos nada de errado.”

E é isso que é, possivelmente, o aspecto mais interessante da história. Porque, enquanto Edward Snowden e suas revelações mostraram como é abrangente a vigilância do Estado, passou a ganhar tração um movimento de contracultura de ativistas digitais defendendo a importância da liberdade e do individualismo e o direito a uma vida privada longe do controle do Estado.

É a filosofia por trás de inovações tão diversas como sites de armas em 3D e sites mainstream como Paypal, e seus proponentes são jovens idealistas, gênios do computador com habilidades digitais para inventar novas maneiras de contornar o poder do Estado.

Ulbricht certamente não parece ter vivido a vida que você imaginaria de um chefão do crime. Ele morava em um apartamento com um amigo. Se tinha milhões escondidos em algum lugar, eles não foram gastos em carros ou coberturas.

Sua página no LinkedIn, apesar de não ser ideal para a auto-expressão de um homem caçado pelo FBI, demonstra que suas crenças são baseadas na ideologia libertária: “Eu quero usar a teoria econômica como um meio de abolir o uso da coerção e da agressão entre os homens”, escreveu ele. “O uso mais difundido e sistêmica da força ocorre entre as instituições e os governos… a melhor maneira de mudar um governo é mudar as mentes dos governados… para esse fim, eu estou criando uma simulação econômica para dar às pessoas uma experiência em primeira mão do que seria como viver em um mundo sem o uso sistêmico da força.”

A Silk Road, ao que parece, pode ter sido esse mundo.

Por Carole Cadwalladr

Publicado originalmente no Business Insider

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