A ameaça permanente do fascismo, 10 anos depois do golpe contra Dilma. Por Moisés Mendes

Atualizado em 17 de abril de 2026 às 21:05
Dilma Rousseff sentada, com o rosto apoiado sobre uma das mãos, séria
A ex-presidenta Dilma Rousseff na época do golpe – Reprodução

Se a História é escrita pelos vencedores, são os democratas que devem narrar o que aconteceu a partir de 2016, com o golpe contra Dilma Rousseff? Fomos os vencedores, derrotados há 10 anos, mas hoje de novo no poder?

É isso mesmo? É esse o clichê que nos serve sobre a História contada pelos que vencem? Nós vencemos? Eles sabem que são os derrotados? É o retrato que está aí.

Dilma teve o mandato abreviado pela velha direita, no começo da ascensão do fascismo, e é hoje a poderosa presidente do Banco do Brics. Desempenha missão mundial estratégica, como destacam hoje em várias publicações.

E Bolsonaro, o produto mais bem acabado do golpe, pelos desdobramentos e sequelas que a trama provocou e o cenário que ajudou a criar, é hoje o inspirador e estrategista da direita para enfrentar Lula em outubro.

Doente, alquebrado, desmoralizado como golpista fracassado, humilhado pela tentativa de destruir uma tornozeleira, mas ainda referência salvadora da direita toda, e não só do extremismo bolsonarista.

Os ex-governadores Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (PSD-GO) e o governador Ratinho Jr. (PSD-PR).

A direita, que já teve a cara de Marco Maciel, tem hoje a cara dos Bolsonaros, porque buscaram mas não há outra saída com as caras pálidas de Zema, Caiado, Eduardo Leite, Ratinho.

A História narrada pelos vencedores é essa. O golpe derruba Dilma, encarcera Lula, põe o fascismo no poder, acovarda as corporações de mídia e aciona a resistência de veículos de comunicação progressistas.

Parece simples, como sempre foi. A derrota do nazismo fez prevalecer a História contada pelos que de fato venceram. Todas as ditaduras derrubadas, na Europa e na América Latina, na segunda metade do século passado, foram relembradas pela voz dos que venceram.

O fim da tirania dos generais brasileiros tem, como versão consagrada, como verdade, as muitas abordagens dos democratas escritas e faladas pelas figuras públicas, pelo jornalismo, pelos historiadores e pela arte.

Mas o golpe de 2016 e a tentativa de golpe de 2022 e 2023 não têm uma versão vencedora que se baste como algo que se imponha como verdade. Porque hoje a História é contada por quem quiser contá-la, pelo acesso de todo tipo de narrador à esfera pública das verdades e das mentiras.

As histórias narradas pelos que venceram não bastam para que se afirmem como expressão da História que fica. As vozes que mais importam numa democracia, dos que votam e decidem, dizem que o fascismo está vivo, até porque muitas falam por esse fascismo.

Os aparentemente derrotados sobrevivem e contam as suas versões com uma vitalidade que não existia antes. Ficou difícil impor o que é verdade. As vozes da direita e da extrema direita, que se misturam e se confundem, falam mais alto e são numericamente mais fortes do que as dos democratas.

As vozes da direita são, quem sabe, até mais consequentes, no sentido de que chegam aos seus propósitos – para usar uma palavra que está na boca de jogadores de futebol e influencers.

Os propósitos da direita se expressam na perspectiva real de um Bolsonaro suceder o pai como líder do antilulismo. E também no fortalecimento dos vínculos de vendedores e compradores de fé e os políticos. No aumento da violência de machos e da polícia.

Os propósitos da direita vislumbram o controle absoluto do Congresso, das emendas, das fábricas de ódios e mentiras. O domínio das corporações de mídia que se encolheram diante do bolsonarismo. O manejo com mais método das redes sociais e das redes de tios do zap.

Se os vencedores escreviam a História, essa escrita hoje fica pela metade, diante da capacidade de rearticulação quase imediata dos perdedores. Contar como vencemos como democratas não é suficiente para que nos sintamos de fato vencedores.

Naquele dia 17 de abril, quando Bolsonaro exaltou a figura de Brilhante Ustra, começou o que ainda não terminou. Aquele 2016 é mais um ano que não acabou e talvez não acabe, nem mesmo com a vitória de Lula em outubro.

A versão contada pelos vencedores já não vale, nem como triunfo moral, o que valia até pouco antes da nova era de disseminação do fascismo no mundo. O balanço desses anos, desde a abertura do processo que levaria ao golpe contra Dilma, pode ser, dependendo do narrador, bastante doloroso.

Mas vamos em frente. É preciso pensar como um pessimista e tentar, como se dizia no século 20, radicalizar nossas ações otimistas. Enquanto ainda enfrentamos um Brilhante Ustra por dia.

 

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/