A assustadora entrevista do presidente golpista. Por Raymundo Gomes

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O que mais assusta na entrevista do “presidente em exercício” à Rede Globo, exibida na noite do último domingo (16), é a superficialidade. O morador do Palácio do Jaburu não apresentou nenhum número. Não anunciou proposta concreta alguma. Não mostrou domínio sobre qualquer tema.

Isso impressiona ainda mais quando se considera que o entrevistado poderia ter recorrido ao famigerado Ponte para o Futuro, apresentado ainda no segundo semestre do ano passado. Em nenhum momento sequer fez referência a esse programa, como se quisesse agora esquecê-lo – ou como se nunca o tivesse lido.

Além da inacreditável tentativa de negar o inegável – “Eu contesto a afirmação de que não há nenhuma mulher [no ministério]” (e pensar que era a Dilma Rousseff que acusavam de negação da realidade!), o atual ocupante do Palácio do Planalto conseguiu ser evasivo numa entrevista armada para que brilhasse, em que em nenhum momento foi interrompido para esclarecer pontos vagos. Mesmo nas questões teoricamente incômodas a repórter designada para fazer o serviço, cuja respiração ofegante traía o nervosismo na leitura das perguntas que a incumbiram de fazer, o “presidente interino” foi incapaz de apresentar alguma ideia com começo, meio e fim. Basta analisar os trechos abaixo:

Programas sociais: “Se for necessário, cortarei de outros setores, não cortarei daqueles mais carentes no país.” (A repórter não o apertou: cortar de onde?)

Educação: “Os estudos estão sendo feitos. A intenção de resolver esse tema já está posta sobre a mesa.” (A repórter não o apertou: quem está fazendo estudos?)

Segurança pública: “Nessa conjunção que se fará desta reunião do ministro da Justiça com os secretários de Segurança, é muito provável que surjam as mais variadas ideias.” (A repórter não o apertou: então não existe ainda nenhuma ideia?)

Regras da aposentadoria: “Nós não examinamos esse assunto ainda.” (A repórter não o apertou: mas e o Ponte para o Futuro, o que diz?)

Impressiona, ainda, que alguns analistas consigam encontrar na entrevista pontos positivos. Josias de Souza, no UOL, o elogia incrivelmente: “Temer leva algumas vantagens sobre Dilma. Ele gosta de política, não tem a pretensão de se imiscuir na gestão da economia, rompe o ciclo de inação e fala português, não dilmês.”

Josias faz uma típica confusão elitista entre forma e conteúdo. Impressiona-se com o verniz do “constitucionalista”, recheado da pompa do juridiquês (“gestos conducentes”, “agiu alicerçado”, “vulnerar direito adquirido”) e não presta atenção no que realmente é dito, ou não dito. Alguns exemplos do bom português falado pelo “presidente em exercício”, extraídos desta entrevista.

“Quando você fala em inquérito, você está falando em inquirição, em indagação, em investigação.”

“Aqui na área federal, nós temos a Polícia Federal, que cuida dos crimes chamados federais.”

“Eu devo até dizer que, em matéria educacional, as escolas são federais, estaduais, municipais.”

Por fim, a notar a derrapada na última pergunta, sobre a intenção de se candidatar à presidência em 2018. Inicialmente o morador do Jaburu deixa a possibilidade em aberto (“De repente pode acontecer”). Logo em seguida, porém, lembra-se do acordo que fechou com o PSDB – deixar o caminho aberto para os tucanos em 2018 – e se emenda: “Não é a minha intenção, e é a minha negativa.” Essa derrapada, porém, vai deixar Aécio Neves e tutti quanti de anteninha ligada. Quem traiu a própria companheira de chapa não teria pudor em trair aliados de ocasião.

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