A atualidade terrível da série que Haddad disse retratar as “bozoaflições contemporâneas”. Por Nathalí Macedo

Este artigo está sendo republicado após a declaração de Fernando Haddad no Twitter: “Depois de Black Mirror, The Handmaid’s Tale é das distopias que mais dialoga com as bozoaflições contemporâneas. Vale a pena”.

Imagine uma série carregada até os dentes de ideologia feminista sem nenhum determinismo e nenhuma demagogia, em pleno Século XXI, quando todos – ou quase todos – são deterministas e/ou demagogos.

Inimaginável? Pois existe.

“The Handmaid’s Tale” está ambientada em um universo distópico que, curiosamente, mas não por acaso, está muito próximo do nosso próprio universo.

June, a protagonista, é uma mulher independente, casada e mãe de uma filha. Ela vive normalmente no mundo ideal da igualdade de gênero – esse mesmo que nós, enganadas, acreditamos vivenciar -, até que, após um surto de infertilidade, instaura-se uma ditadura patriarcal nos EUA, que ganha o nome de República de Gilead.

Ela perde sua família, seu emprego, sua independência, sua vida e sua indentidade: em vez de June, passa a chamar-se Offred, que quer dizer “Serva de Fred”, o homem que, a partir de então, passa a ser o seu dono.

Sim, isso causa náuseas.

O universo da série é construído a partir de castas: as “aias” são as mulheres férteis (June é uma aia), – aquelas que já tinham seus filhos antes da instauração da ditadura (os filhos lhes são arrancados à força), – responsáveis por engravidarem de seus “donos” e salvarem a humanidade da extinção – nós, sempre, mães do universo! -, as “Marthas”, que, não podendo mais reproduzirem, cuidam dos serviços domésticos, as “esposas”, aquelas cheias de privilégios sociais que se empenham em auxiliarem seus maridos no ofício de oprimirem as mulheres menos privilegiadas e não se dão conta de que, a despeito dos privilégios, também são oprimidas, e, finalmente, mas não menos importante, as “Tias”, mulheres responsáveis a ensinarem – às vezes na base da doutrinação, às vezes do castigo físico – às Aias que perpetuar a humanidade é o seu dever e que elas devem se sacrificar porque Deus quis assim.

Se você é uma mulher e essa divisão de castas não tem nenhuma semelhança simbólica com a realidade, desculpe, mas você tem problemas cognitivos.

“Vocês devem se sacrificar porque Deus quis assim” é, alias, o que diz a bancada evangélica brasileira do Século XXI, embora eu não queira acreditar que o universo horrendo de “The Handmaid’s Tale” esteja tão perto de mim.

Acontece que, queiramos ou não, há várias tias e várias esposas e, principalmente, vários potenciais donos à espera de servas, com a bênção de Deus.

O sacrifício que “Deus” – o patriarcado, lamentavelmente, É Deus –  consiste em submeter-se a um ritual de fertilização – estupro, o nome – em que a esposa segura nas mãos da aia, que é penetrada pelo seu dono. Para a procriação. Porque deus quis assim. Inclusive, o estuprador ora antes e depois do ato. Fofo.

A série foge do clichê mulheres-rainha-homens-nadinha. Esposas oprimem aias. Tias oprimem aias. Aias oprimem umas às outras. Aias se apaixonam por seus algozes. O mundo, sabem os roteiristas, não é linear.

Pode ser vista no canal da Paramount (além do torrent piratão).

Mas por que, afinal, uma série tão adstringente tem sido aplaudida por nove entre dez feministas e pessoas interessadas nas questões de gênero?

Porque sua adstringência é um mal necessário.

Suas personagens femininas são bem construídas, seus conflitos são bem colocados e questões importantes – maternidade, abuso, sororidade – são postas com cuidado, poesia, honestidade e uma dose de sadismo (inclusive, há gatilhos gravíssimos para mulheres que já sofreram abuso sexual. Para estas, não recomendo).

A série vale a pena pelos simbolismos sutis, por explorar a estreita relação entre religião, maternidade e opressão de gênero e, se nada disso for suficiente, vale só pela beleza – cada cena é um quadro perfeito.

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