“A bala vai comer, neguinho. Neném vai cantar pra bandido dormir”

 

Em um vídeo de pouco mais de 30 segundos, um policial militar faz a síntese de um longa metragem de terror.

Ele acaricia seu fuzil dentro da viatura e diz: “Olha o meu bebezinho aqui. Neném vai cantar, né? Neném vai cantar agora. Vai cantar para o bandido mimir.”

Eles são lotados no batalhão da Maré (22º BPM), zona norte do Rio de Janeiro. Foram identificados e ouvidos pela 1ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar, que apura o caso.

Prestaram depoimento, não terão os nomes divulgados mas responderão a inquérito interno e receberão “orientações educativas quanto à postura esperada deles enquanto servidores públicos.”

Fica difícil, para não dizer impossivel, defender ou mesmo assimilar qualquer argumento que procure contemporizar a atitude da polícia.

Quando vemos vídeos como esse, que dão uma dimensão exata do tipo de “profissionais” que atuam nas polícias, fica bem difícil.

Que virou uma guerra, todos sabemos. Que na “intimidade” de uma viatura pronunciem-se barbaridades do gênero “a bala vai comer”, é compreensível. Mas o lado “do bem” é que precisa agir com inteligência, com responsabilidade, equilíbrio emocional, dentro da lei, livre do sentimento de vingança.

Porque senão a coisa esculhamba de vez. Gravar todo o espetáculo macabro pelo celular e ter o cuidado de deixar que o vídeo se espalhe, é de estarrecer. É por gente desse calibre que as polícias são cada vez mais desacreditadas e odiadas. Alegar se tratar de “minoria” ou de “banda podre” não só não alivia como não exime de culpa.

Quando o critério de seleção adotado deixou passar isso, o que se pode esperar? E todos sabemos que hoje em dia já não é mais tão minoria assim. Se fosse, não ocorreriam tantos casos como o do menino Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, morto durante operação da polícia no Complexo do Alemão na última quinta-feira, gerando uma onda de protestos.

As mortes de inocentes em batalhas contra o crime são consequências que devem ser evitadas a todo custo mas não causariam tamanha indignação se não fosse do conhecimento de todos que a PM age muito mais imbuida de raiva e apoiada no despreparo do que no sentido de realmente combater a criminalidade.

Anunciar rotineiramente que os PMs serão afastados de suas funções é muito pouco pelo cenário desanimador que se avizinha.

“Será que a bala vai comer agora, Silva? A bala vai comer, neguinho!” Responda, tem algo errado ou não?

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