A burrice suicida de subestimar a China e os países árabes. Por Miguel Enriquez

Eduardo Bolsonaro foi aos EUA de bonezinho de Trump

POR MIGUEL ENRIQUEZ

Em sua obtusidade e total despreparo, entre uma continência e outra, o capitão Jair Bolsonaro tem se notabilizado pelo alinhamento incondicional aos Estados Unidos, promovido a parceiro preferencial de seu futuro governo na política e nos negócios. Essa opção, que tem em sua origem o ranço do anticomunismo dos tempos da Guerra Fria, traz como contrapartida a subestimação da importância de outros atores no cenário internacional, a China em primeiro lugar.

Esse posicionamento, aliás, tem incomodado integrantes mais pragmáticos de novo governo, como é o caso do vice-presidente eleito, o general Hamilton Mourão. Recentemente, ao mesmo tempo em que reconhecia a importância econômica e estratégica dos Estados Unidos, Mourão ponderava: “mas não podemos descuidar dos outros grandes atores da arena internacional. Não podemos nos descuidar do relacionamento com a China.”

Essa percepção foi reforçada na edição deste domingo, dia 9, pelo Estadão, em nota publicada em sua página editorial, com o título “O Peso da China”. Com base nos resultados da balança comercial brasileira até novembro deste ano, o jornal constata um aumento significativo do peso relativo dos chineses como destino das exportações do país.

“Os dados não deixam dúvida: o peso da China no comércio exterior brasileiro, já notável nos últimos anos, tornou-se ainda maior em 2018”, diz inicialmente o editorial. “Do superávit comercial de US$ 51,7 bilhões acumulado pelo Brasil nos 11 primeiros meses deste ano, nada menos do que 50,7%, ou US$ 26,2 bilhões, resultaram do comércio com a China.”

Segundo o Estadão, no ano passado, esse comércio produziu 30,7% do saldo comercial acumulado no mesmo período (US$ 19,0 bilhões, de um total de US$ 62,0 bilhões). Mais: a segunda maior potência do mundo já absorve mais de um quarto do total que o País exporta. Dos US$ 220 bilhões exportados pelo Brasil de janeiro a novembro deste ano, US$ 58,8 bilhões, ou 26,7%, tiveram a China como destino.

“Só esses números bastariam para mostrar a crescente influência da China sobre a economia brasileira”, pondera a nota. “Mas este é apenas um dos lados do relacionamento cada vez mais intenso entre o país cuja economia dentro de alguns anos será a maior do planeta e aquele que tem a maior economia da América Latina.”

Com isso, o jornal chama a atenção para a crescente presença dos capitais chineses estoque de investimentos estrangeiros absorvidos pelo Brasil, que vêm se intensificando desde 2007, de acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Nesse período, estima o CEBC, o   volume acumulado de investimentos chineses chegou a  US$ 98 bilhões, num total de 157 projetos, dos quais US$ 55 bilhões foram confirmados.

Detalhe: essa seria uma visão conservadora. Utilizando  outra base de dados, a Secretaria de Assuntos Internacionais (Seain) do Ministério do Planejamento, mapeou 269 projetos de investidores chineses anunciados e confirmados de 2003 até agosto deste ano, envolvendo investimentos de US$ 124 bilhões.

“Há discrepâncias nos números entre os dois levantamentos em razão do uso de diferentes fontes. Ambos mostram, porém, a forte e crescente presença do Dragão chinês na economia brasileira”, diz o editorial. Essa dinheirama está sendo aplicada tanto em projetos novos como na compra de negócios já existentes, em áreas que vão da exploração de petróleo e gás, mineração e  energia à automobilística.

Ao contrário de Bolsonaro, que do alto de suas posições preconceituosas chegou a dizer que “a China não está comprando do Brasil, ela está comprando o Brasil”, o jornal da família Mesquita saúda esse apetite dos capitais chineses (em sua grande maioria via empresas estatais) por ativos no Brasil por suprirem a notória falta de capacidade de investimento da economia brasileira.

“Eles são particularmente relevantes no momento em que o País enfrenta uma séria crise fiscal que corrói os investimentos públicos. Pode-se divergir de métodos e práticas do regime chinês, mas não se pode ignorar o papel que a economia e os investimentos chineses têm na sustentação da economia brasileira”, finaliza o editorial.

Nesse texto, o jornal não trata de um outra ameaça importante para o desempenho do comércio exterior brasileiro, decorrente da incontinência verbal bolsonariana, que é a eventual retaliação dos países árabes à sua já  anunciada intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

Embora os volumes envolvidos estejam a léguas de distância dos registrados no relacionamento comercial com a China, os números mostram à exaustão do tiro no pé que significar uma adesão incondicional à essa truculência patrocinada pelo  presidente americano Donald Trump, na contramão da grande maioria da comunidade internacional.

Em 2017, os países árabes (Arábia Saudita, Emirados, Egito, Argélia, Iraque, Omã, Marrocos e Catar), compraram nada menos de US$ 13,6 bilhões em produtos agropecuários brasileiros, que geraram um saldo positivo de US$ 7,1 bilhões, descontadas as importações da região, notadamente de petróleo.

Além disso, a exemplo da China, a comunidade árabe tem um grande potencial de investimentos, que poderia ficar comprometido, caso as relações diplomáticas com o Brasil fiquem estremecidas. “Cerca de 40% dos fundos soberanos estão nesses países e eles já demonstraram interesse em investir em infraestrutura no país, como estradas, ferrovias e elétricas, afirma Rubens Hannun, presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. “São planos futuros que podem ser cortados.”

Basta verificar os números. O mercado de Israel praticamente não existe no mapa das exportações brasileiras. No ano passado, por exemplo, as vendas para o país do primeiro ministro Benjamin Netanyahu mal ultrapassaram a casa dos U$S 300 milhões, contra US$ 1 bilhão importados, o que gerou um déficit de US$ 700 milhões.

Nesse caso, até o mais obtuso dos garotos de Bolsonaro (é uma tarefa inglória tentar definir quem é o mais sem noção) deverá concluir que, do ponto de vista da geração de divisas, é uma roubada apostar no cavalo israelense em detrimento do árabe.

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