A candidatura da “mãe PM” e a exploração eleitoreira da violência. Por Marcos Sacramento

Márcio França e a PM Kátia Sastre

Os 15 minutos de fama da policial Kátia Sastre tem tudo para durar por muito tempo. Depois de ser notícia nacional por matar um bandido que assaltava um grupo de mulheres, a cabo da Polícia Militar de São Paulo vai ser candidata a deputada federal.

Ela vai se filiar ao PR, conforme informou o deputado federal Capitão Augusto. A expectativa do partido é que ela receba até 500 mil votos e ajude a eleger outros nomes da legenda.

A investida do partido político junto à policial é só mais uma prova de como a endemia de assaltos, estupros e homicídios, que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso considera trágica, pode se tornar um recurso para fins eleitoreiros.

A tática, apesar de velha, é eficiente. Ajudou a eleger os Bolsonaro e um bom número de parlamentares que levam junto aos nomes patentes militares ou a alcunha de “delegado”, escorados na tensão social provocada pela violência e pródigos em soluções rasas e inócuas como a universalização do porte da arma ou a implantação da pena de morte.

Cada crime noticiado é carne suculenta para os abutres enfiados em ternos azul-marinho. Com o papo cheio, arrotam promessas e de sobremesa saboreiam os votos dos iludidos.

Neste banquete sanguinolento, não há espaço para questionamentos éticos como o respeito à memória das vítimas ou à preservação da identidade dos envolvidos, como demonstrou o futuro correligionário da cabo Sastre, senador Magno Malta, ao levar a CPI dos Maus Tratos para o seu reduto eleitoral, o Espírito Santo.

Sem economizar no histrionismo e se aproveitando de câmeras estrategicamente colocadas, o senador deu voz de prisão ao tio e ao avô de um menino de dois anos que havia sido abandonado na rua pela mãe alguns dias antes. A acusação foi de que a criança seria vítima de abusos por parte dos dois.

Faminto por holofotes, o senador nem levou em consideração a repercussão da notícia do abandono do menino ao tornar pública a acusação contra os dois homens, expondo, consequentemente, a imagem da criança.

A mesma CPI ouviu o pastor George Alves, acusado de estuprar, agredir e atear fogo no filho Joaquim, de três anos, e no enteado Kauã, de seis. George estava preso há quase um mês e as investigações que concluíram a sua participação no crime haviam terminado dois dias antes do depoimento da CPI.

A imprensa deu ampla cobertura ao depoimento, embora sem colher nenhuma informação relevante a respeito do crime. A questão mais importante, contudo, passou despercebida. Ninguém questionou por que o senador gastou dinheiro público para levar o aparato da CPI ao Espírito Santo e colher depoimentos de acusados que aguardam julgamento.

Se perguntassem ele não falaria, mas é obvio que Magno Malta fazia palanque para a reeleição ao Senado ou se aventurar como vice de Jair Bolsonaro. Nada mais que isso.

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