A carta aberta em que Tarso Genro elogia Míriam Leitão pela posição antifascismo

Míriam Leitão

Publicado originalmente no site Sul21

POR TARSO GENRO, governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil

Pensei em escrever-te pessoalmente, mas como o assunto que quero abordar diz respeito não somente a nós, mas a toda uma situação política dramática que atravessa o nosso país e sobre qual ambos temos -ou tivemos – algum tipo de protagonismo, resolvi fazer uma correspondência pública. Sou um leitor assíduo do que escreves e é óbvio, temos posições completamente diferentes sobre quais as lideranças e remédios econômico-sociais precisamos, para retirar o país desta situação de desigualdade social e proto-fascismo a que chegamos.

Confio que, mesmo com entendimentos diferentes do que isso significa, queremos -neste momento- recuperar um mínimo de dignidade da política no país, violentado todos os dias por um Governo que não tem paralelo na nossa história. Tanto no que refere a sua ruindade, anti-republicanismo, como em matéria de imoralidade e corrupção, incomparáveis com qualquer período republicano ou não republicano da vida nacional. Acho que te recordas que nos conhecemos pessoalmente e que sempre tivemos uma relação de respeito e – embora divergentes – penso que nunca nos colocamos numa postura de desconfiança em relação a nossa integridade recíproca. Nem pensamos que, mesmo estando em posições opostas – nos nossos papeis sociais – nosso diálogo fosse impossível. É é com base nisso que te envio esta carta pública.

A filosofia política que esposo me deu duas lições que tenho por consolidadas na minha formação. Preciso dizer algo sobre elas, para te transmitir -e aos que nos acompanham- a minha mensagem sobre o que penso que nos acontece no momento. A primeira lição que recolhi é que as disputas na esfera da política -portanto na esfera pública- não são disputas entre equivalentes, no que se refere aos projetos que cada um tem na sua cabeça. Logo não basta que dizer que “queremos a mesma coisa para o país” ou para determinados setores da sociedade, para que a política que fazemos seja digna -na mesma intensidade- para os protagonistas em disputa.

Quando coloco, por exemplo, o Haddad e o Bolsonaro como “equivalentes” – embora em polos opostos – estou fraudando a dignidade da política e manipulando mentes para atingir algum objetivo eleitoral. Posso fazer isso iludido, por conveniência, por forças das circunstâncias -sem dolo- mas com minha atitude sobre esta falsa equivalência e falsidade, estou legando para a História -naquele presente-  algo da minha moralidade política, mais tarde verificável como “erro” ou “acerto”, em consonância com determinados princípios.

Da filosofa política que esposo também me vem uma segunda lição e que também quero compartilhar contigo: a totalidade histórica não exclui da compreensão da História a sua dimensão ético-política. Não se se reduz a ela, é claro, embora a considere importante por conter elementos da “direção cultural e moral”, num certo momento de “hegemonia”.   Esta dimensão ética da política é sempre uma dimensão do “presente” que está sendo vivido, pois os aspectos ético-políticos -que também fazem a História- estão sempre relacionados com o que está acontecendo. A partir da interpretação deste presente é que fazemos uma suposição ou uma mera presunção do que “deve-vir”.

Assim, se num determinado momento acho que  de um determinado “mal” – uma violência, uma mentira, uma meia-verdade – posso extrair algo de bom para o futuro, arrisco fazê-lo. No nosso campo político posso indicar como erro berrante, por exemplo, a grosseria de crer na possibilidade de que o Cunha pudesse ter alguma posição digna – que não fosse “comercial” – para evitar o “impeachment” da Presidenta Dilma. No teu campo, a confiança de que valeria a pena “absorver” e promover Bolsonaro e inclusive aceitar notórias fraudes eleitorais -para assegurar as privatizações selvagens e as reformas desejadas pelos Bancos e Agências de Risco- levando o país ao desastre que aí está. Por que digo que a política não é a disputa entre “equivalentes”?

Do resultado destas duas posições, que não se equivalem, temos como consequências mais graves – dando de barato que as intenções de todos fosse o “bem” –  a posição ético-política que possibilitou o que temos hoje: um país em desintegração moral e política, que agora exige que todos os protagonistas construam posições novas sobre este resultado. A primeira delas parece-me  – dada a gravidade da situação –  é julgar o comportamento de cada um no presente, não no passado. E ver o que seu comportamento atual pode provocar de positivo nas outras pessoas que estão sob sua influência. O objetivo desta postura nova, portanto, seria somar com um objetivo central: superar este novo presente, derrotar o fascismo miliciano e retomar a vida democrática do país, longe dele e da necrofilia política que ele exala.

A  integridade das pessoas na história é sempre construída processualmente e a “autocrítica” tão exigida, nada tem a ver com autoflagelação, mas com a natureza da “praxis” que vai se abrir no próximo período, que se alimenta de acertos e erros, desejos e princípios, que em alguns momentos também podem sofrer revisões, alusões e exames, para interferir no novo presente. Sempre pensei que a requisição de “autocrítica”  do PT pela direita -com raras exceções- fosse uma poderosa propaganda de quem não tinha um projeto humanista e democrático para o país e precisava desviar a atenção do seu vazio -preenchido por uma dura politica de ajustes- que só iria atacar os mais fracos, que o PT -juntamente com as demais formações da esquerda- sempre se propôs a defender.

Esta carta tem a finalidade de te dizer publicamente Miriam -sabendo de tudo que passaste nas mãos de pessoas como as que estão hoje governando o Brasil- que acredito na tua integridade. Um ser humano que passou pelos tormentos que passaste e que conseguiu se equilibrar na vida, fazer-se profissionalmente e projetar-se social e politicamente em todo o país, sempre merece respeito, principalmente pelo que está sendo no seu presente. É na centralidade do presente que temos que saber viver e lutar. É nesta centralidade que – quem sabe – possamos construir no futuro um espaço moral novo, para a compreensão do nossos erros, pois ninguém – de qualquer partido ou posição política – poderá superá-los fora da História. E esta, a História, é também o percurso da nossa subjetividade compartilhada, sem equivalência – é certo- mas com respeito e integridade.

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