A carta de Migliaccio. Divulgar ou não? Por Moisés Mendes

Flávio Migliaccio. Foto: Reprodução

Publicado originalmente no blog do autor

É bom o debate sobre a carta deixada por Flávio Migliaccio. Divulga ou não divulga? Parece que o desejo dele seria pela divulgação, ou a carta não teria ficado exposta e sem um destinatário específico.

A carta é para o seu público, os destinatários estão no plural (“Me desculpem”), são os que admiram sua arte e amam sua leveza.

É o registro antecipado do último ato de um artista que decide abreviar a vida na velhice. Não há confidências, mas um desabafo também político em voz alta.

Isso não determina que a carta deva ser publicada, porque a provável vontade de Migliaccio tem implicações variadas que podem envolver outras pessoas.

Já se disse muito, e também desta vez, que suicídios podem desencadear outros suicídios, inclusive se forem inadvertidamente romantizados. E ainda é preciso considerar o momento, o cenário geral de desolação em meio a uma pandemia.

O jornalismo já mudou a abordagem dessas tragédias. Até uns 10 anos atrás, quase nada era noticiado, mas já não é mais assim.

Mas o suicídio de um jovem que deixa uma carta teria a mesma abordagem jornalística do caso de Migliaccio? Não. Mas com o tempo poderia ter uma abordagem, digamos, pela arte, como já tivemos.

Quero contribuir para essa conversa com outra olhada em acervos com textos de pessoas mortas, compartilhando uma crônica primorosa do escritor Michel Laub, publicada há muito tempo na Folha.

Advirto que não se trata do mesmo foco. Aborda a questão do direito que achamos que temos de divulgar, por exemplo, sem contextualização, cartas com ‘segredos’ reveladores da possível personalidade oculta de determinado morto, sempre com o pretexto de que foi famoso ou historicamente relevante.

Segue o texto do Laub, que era a melhor coisa que existia na Folha, pela capacidade de ser complexo e sofisticado sem afetação.

Me lembrei hoje dessa crônica-ensaio do Laub e por sorte a encontrei via Google, claro. É de 24 de maio de 2013. Não vou publicar a carta de Migliaccio, até porque já circulou bastante hoje, mas não tenho nada contra sua divulgação, e ofereço abaixo o texto desse grande escritor.

SEGREDOS QUE NÃO INTERESSAM

Michel Laub

Cada pessoa tem sua escala de valores, que obedece tanto a princípios elevados quanto ao bom e velho fígado.

Na minha, quem vaza correspondência privada é a escória. Não há vingança conjugal, surto psicótico ou senso infantil de justiça que desculpe esse que é o mais covarde dos ataques. Algo que acompanhará o atingido para sempre, sem chance de defesa do que muitas vezes parece ser – e nem sempre é – uma confissão vexaminosa.

O caso de Graciliano Ramos, que terá cartas inéditas publicadas este ano, é diferente. Não há ataque nem vexame. A reunião dos textos parece ter sido feita com rigor e boa-fé. Dá para evocar o interesse público envolvido, o mesmo que autoriza divulgar segredos quando estes ajudam a explicar a atuação política de um governante. Ou o processo criativo de um artista consagrado e morto, as influências em sua obra, a cultura da época em que atuou.

Tudo parte do jogo, e melhor corrigir eventuais excessos com medidas judiciais a posteriori do que apelar para a solução Roberto Carlos (veto prévio, que na prática equivale a censura). Não estou discutindo o direito dos herdeiros e das editoras de publicar o que quiserem, mesmo textos que o autor preferiu manter na gaveta. O gancho do ineditismo, tão ao gosto da imprensa e do mercado, é sempre mais forte do que a reafirmação das qualidades de um romance clássico.

Penso é nas leituras equivocadas que podem surgir quando a intimidade é exposta dessa forma. Segundo reportagem da Folha, a imagem do tímido e sisudo Graciliano é desmentida por cartas que o mostram “gregário e cordial”. Também generoso nos elogios, “inclusive a novos escritores que ele tinha fama de afugentar”.

Talvez haja sinceridade aí. Por experiência que imagino ser comum a quem se expressa por escrito, porém, é o tipo de texto que talvez não devesse ser tomado pelo valor de face. Imaginem se cada mensagem que enviamos, usando recursos aprimorados em anos de proximidade com os destinatários, entre eles o sarcasmo, o exagero, a construção de personas só decodificáveis por uma dúzia de amigos, fosse submetida ao julgamento público de quem não conhece os envolvidos e/ou suas referências.

Enganos desse tipo seriam mais prováveis em textos de 2013, até pela forma como o gênero epistolar mudou depois do surgimento do e-mail e do chat. As banalidades que ajudam a firmar uma relação pessoal, incluindo piadas mais arriscadas, que soam grotescas se interpretadas literalmente, são mais fáceis de serem contextualizadas em tempo real, esclarecendo de imediato os mal-entendidos, do que em cartas que demoravam semanas para terem resposta –e por isso exigiam de seu autor mais densidade e cuidado.

Mesmo assim, não estou convencido de que uma correspondência dos anos 1930 ou 1950 despreze ferramentas de linguagem para tentar chegar a efeitos semelhantes. Afinal, a escrita é teoricamente capaz de transmitir qualquer ideia e sentimento. Sei lá se Graciliano era de fato simpático e generoso. Nenhuma chance de cinismo aí? Nem de ironia entre amigos? Nem de uma personalidade expansiva no texto para compensar a inadequação social fora dele?

Uma biografia alentada, que confronta os pontos de vista de dezenas de fontes, inclusive escritos do biografado, poderia chegar perto de uma resposta.

Espero que as cartas de Graciliano compensem isso de algum modo. Mesmo se enviadas, quem sabe, por obrigação afetiva ou profissional. Difícil um escritor com alguma estrada não fazer elogios falsos e inofensivos, por exemplo, para se livrar de interlocutores indesejáveis ou não ferir o ego de pessoas queridas.

Existem lançamentos editoriais demais e tempo de menos. Nada posso contra isso, exceto fazer minhas escolhas solitárias de consumidor. De Graciliano eu li “Angústia” e “Vidas Secas”. Os próximos títulos da lista continuarão sendo os que ele escolheu tornar públicos. Ali está a essência do escritor: suas melhores qualidades, suas melhores fraquezas, a parte mais interessante do seu caráter.

É por isso tudo que lembramos dele, e não por supostos segredos que (ao menos para mim) não interessam.

(Texto publicado na Folha em 14 de maio de 2013)

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