A cassação de Cunha não elimina um mistério: por que ele só foi afastado depois de derrubar Dilma? Por Paulo Nogueira

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É aquela situação em que você deve rir e chorar ao mesmo tempo.

A cassação de Eduardo Cunha livra o Brasil de sua maior vocação de corrupção na história da República.

Um escroque, um achacador, um mafioso, um ladrão, um mentiroso compulsivo, um destruidor, um psicopata dedicado explusivamente ao enriquecimento pessoal: de tudo isso os brasileiros se livram de uma só vez.

Este é o motivo de festa.

A razão do travo amargo na celebração é uma pergunta que jamais foi respondida: por que isso só aconteceu depois que Cunha teve todo o tempo para comandar o processo de impeachment de Dilma?

Já se sabiam seus crimes quando ele, inexplicavelmente, continuou na presidência da Câmara dos Deputados no trabalho sujo de destruir 54 milhões de votos e acabar com a democracia.

Janot já tinha produzido um documento minucioso em que reivindicava a saída do rei dos corruptos e dos manipuladores.

Os suíços já tinham denunciado as milionárias contas secretas na Suíça, abastecidas com dinheiro sujo. Isso pouco depois de Cunha jurar na CPI da Petrobras não ter conta nenhuma fora das declaradas.

Mentiu, o que lhe custaria o cargo. E depois tratou os brasileiros como débeis mentais ao afirmar que era “usufrutuário” de um “trust” cujo dinheiro seria originário de negócios que ele “fizera” décadas atrás na África, ou coisa parecida.

Como Cunha teve livre conduto para tocar o impeachment mesmo diante de acusações colossais é um mistério.

Devemos esta aberração ao ministro Teori, que engavetou a solicitação de afastamento de Cunha por dias, semanas, meses para só fazer o que deveria ter feito prontamente depois que Cunha assassinou o governo Dilma.

Ele teve permissão para manter a pistola com a qual cometeria seu crime. Teori jamais explicou a demora monstruosa.

No mais, a cassação teve o roteiro previsível. Ratos abandonaram o rato-chefe.

Este, ao fazer a própria defesa, misturou ódio com uma autopiedade patológica. Chorou sem convencer ninguém da sinceridade das lágrimas, acusou desvairadamente os deputados que votariam em seguida, invocou Deus e falou na família.

Faltou hombridade, faltou dignidade, faltou tudo que faz um homem ser um homem.

A família Cunha — tirada Claudia, cúmplice — merece sim comiseração. Os filhos de Pablo Escobar, já que estamos na temporada de Narcos, foram vítimas de um pai sanguinário.

O único culpado pelas dores dos filhos de Cunha é ele mesmo. Se pensasse nos filhos, e menos em si próprio e nas perspectivas de enriquecer roubando, não teria feito o que fez.

Ninguém obrigou Cunha a seguir o caminho da criminalidade política.

Ele deve a si próprio, e a ninguém mais, toda a desgraça que, enfim, o alcançou.

Teve o que mereceu.

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