A cobertura das eleições americanas no Brasil está sendo exagerada? Por Paulo Nogueira

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Nas redes sociais, internautas reclamam do que consideram volume exagerado do noticiário sobre as eleições americanas. É um bom ponto. Pessoalmente, acho que o DCM vem acertando na dose. Mas vale a pena, para todos os jornalistas, a reflexão.

Não é exatamente um fato novo, embora possa parecer a muitos. Há 100 anos,  Tolstoi tratou de algo semelhante — a seu modo brilhante, enfático e ferino.

O que Tolstoi afirmou é que, com o “desenvolvimento da imprensa”, qualquer evento pode se tornar um “grande acontecimento” e receber uma cobertura “profundamente inadequada para sua real importância”. Essa cobertura, “frequentemente exagerada até a insanidade”, se mantém até que o assunto seja simplesmente esquecido e trocado por outro.

Claro que as eleições americanas não são “qualquer evento”, mas isso não invalida o debate.

Tolstoi citou o exemplo do controvertido caso Dreyfus, o militar francês acusado de traição.”Ou porque este capitão em particular fosse judeu, ou por causa de alguma discordância no âmbito interno da sociedade francesa, a imprensa passou a dedicar uma cobertura enorme ao caso. Histórias semelhantes acontecem o tempo todo, sem atrair a intenção de ninguém, nem sequer dos militares franceses, e menos ainda do mundo todo.”

Tolstoi falou de uma caricatura da época. Uma família começa a discutir o caso Dreyfus e de repente todos estão brigando. “Pessoas de diversas nacionalidades, que jamais se interessariam em saber se um militar francês era traidor ou não, se dividiram, umas garantindo que Dreyfus era inocente, outras jurando que era culpado. Alguns anos se passaram até que essas pessoas entendessem que não tinham como avaliar a culpa ou inocência, e que havia para elas assuntos muito mais próximos e importantes do que o caso Dreyfus.”

É verdade que Tolstoi nunca comandou uma redação para ver como é difícil definir o tamanho da cobertura deste ou daquele episódio, mas mesmo assim, dado este desconto, poucas vezes li palavras tão instigantes sobre  o jornalismo — e o comportamento do público.

Rio sozinho imaginando pessoas de uma mesma família se envolveram em apaixonadas discussões sobre quem é melhor, Trump ou Hillary — sem notar, como disse Tolstoi,”que havia para elas assuntos muito mais próximos e importantes”.

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