A condenação de Gentili nada tem a ver com liberdade de expressão. Por Nathalí Macedo

Gentili esfrega notificação nas partes íntimas

Depois de praticamente implorar por isso por vários anos, Danilo Gentili finalmente foi condenado a 6 meses de detenção em regime semiaberto por injuriar a deputada federal Maria do Rosário.

Segundo a juíza Maria Isabel do Prado, da 5ª Vara Federal Criminal de São Paulo, ao gravar um vídeo em resposta a uma notificação extrajudicial, Gentili ofendeu a dignidade da deputada, chamando-a de “puta” (assista no pé do artigo).

Ele aparece enfiando nas calças o ofício que determinava que ele apagasse posts ofensivos.

O humorista não foi preso porque a pena aplicada pode ser substituída por multa e ele tem o direito de responder em liberdade.

Mesmo assim, tem sido tratado por muitos como um pobre coitado que foi injustiçado por falar o que pensa.

Teve inclusive quem enquadrasse o caso – por ingenuidade ou desonestidade, não se sabe – como um atentado à liberdade de expressão.

Calma lá: a condenação de Gentili nada tem a ver com liberdade de expressão.

Ele foi condenado por injuriar uma pessoa. Ponto.

A liberdade de expressão não te permite xingar pessoas publicamente e sair ileso. Não sou eu quem digo, é o Código Penal Brasileiro, mais precisamente no artigo 140. Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa.

Exercer a liberdade de expressão é uma coisa. Cometer injúria é outra, muitíssimo diferente.

Alguns artistas manifestaram apoio ao comediante, como Tom Cavalcante e Lobão – sempre muito bem-relacionado, como é notório.

Fábio Porchat também se manifestou: “Muito perigoso um político que exige que você apague seus comentários”

Não. Não é um político exigindo que você apague seus comentários.

É a justiça sendo feita a uma mulher – antes de tudo, ela é uma mulher – que teve sua honra publicamente atacada. Estamos falando de uma sentença assinada por uma juíza togada, e não de um gulag do politicamente correto.

Liberdade de expressão não é reivindicar o direito de ofender alguém publicamente. Isso é incivilidade, mesmo.

Além disso, é claro que a questão é muito maior do que o debate sobre liberdade de expressão, e a maior prova disso é o fato de o presidente da República ter manifestado apoio a um condenado por injúria.

“Me solidarizo com o apresentador e comediante Danilo Gentili ao exercer seu direito de livre expressão e sua profissão, da qual, por vezes, eu mesmo sou alvo, mas compreendo que são piadas e faz parte do jogo, algo que infelizmente vale para uns e não para outros”, escreveu.

Não é nem um pouco surpreendente que Bozo se identifique com Gentili: eles claramente nasceram um pro outro. Além de compartilharem o ódio e o talento para piadas ruins, eles têm como inimiga em comum a própria Maria do Rosário.

É claro que o presidente compreende que “são piadas e faz parte do jogo”: afinal, ele também tem o hábito de confundir liberdade de expressão com discurso de ódio.

O apoio a Gentili só escancara o óbvio: o comediante representa muito bem o Brasil de Bolsonaro, e é por isso que a turma da arminha com a mão tem se levantado para defende-lo.

Não adianta espernear: quer eles queiram, quer não, seu mártir do humor cometeu um crime e foi condenado.

Só de vez em quando as leis ainda funcionam em um país governado por um Bolsonaro.

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