A confusão no caso Elisa Quadros, ex-Sininho, e o terrorista Eduardo Fauzi. Por Alceu Castilho

Elisa Quadros, a Sininho

Publicado originalmente no perfil de Facebook do autor

POR ALCEU CASTILHO, editor do De Olho nos Ruralistas

E vamos lá: Elisa Quadros.

Está rolando muita confusão por aí. E muita paixão.

Do ponto de vista jornalístico (quem quiser me excluir sem chegar até o fim fique à vontade…), não há erro em veicular o vídeo em que Elisa, na época Sininho, cita o nome daquele que, no fim de 2019, foi um dos que atiraram coquetel molotov na sede do Porta dos Fundos.

Se foi da melhor maneira, com os melhores instrumentos do jornalismo, é uma discussão. Importante. Mas vou achar curioso colegas jornalistas defenderem o contrário: que o vídeo antigo não era uma notícia. Era.

Os personagens são públicos. Elisa pode ter abdicado do apelido, mas era uma figura pública. Participou de um um momento histórico importante. E Eduardo Fauzi, claro, é um dos personagens mais relevantes dos últimos dias.

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Isso significa que Elisa era uma vidente, que poderia saber que ele participaria de um atentado de extrema-direita? Claro que não.

E aí temos um problema que ultrapassa o jornalismo, mas coloca um problema para ele: o imediatismo (inclusive anacrônico…) faz parte das redes sociais. E o jornalismo baseado apenas em divulgação de vídeos não contribui nem um pouco para minimizar esse problema.

Ou seja, falta contextualização. Em que situação Sininho disse aquilo, como Fauzi e os outros detidos eram percebidos pelos líderes, tudo isso faz parte dos fatos — ou da interpretação dos fatos.

Só que alguns fatos existem: ela citou o nome dele, a greve de fome (segundo ela) foi feita em defesa dos presos etc.

E a interpretação dos fatos está em disputa.

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Demonizar Elisa tem se mostrado uma tendência nítida. Com xingamentos inclusive. Somente por alguns petistas que atribuem às jornadas de 2013 o deflagrador do golpe e de tudo que está aí? Acho que não: que o buraco é mais embaixo. Não vejo tanta gente serena nesse debate.

Por outro lado, a canonização geral e irrestrita de Elisa, como se não pudéssemos discutir o papel dos líderes em 2013, também se mostra uma tendência eloquente. Há até quem diga que não podemos discutir 2013, pois estamos em 2020 e tem muita coisa rolando por aí.

Bom. Não e não.

Insisto: do ponto de vista do jornalismo factual, foram mostrados fatos. Gostemos deles ou não. Elisa defendeu Fauzi e defendeu outro personagem controverso, conhecido como Baiano. Nenhum deles estava no campo da esquerda — o campo dos defensores de Elisa. Sim, esquerda não defende só esquerdista, defende direitos. Só que os oportunistas existem.

(O campo de quem ataca Elisa é mais amplo, pois inclui setores da esquerda e as pessoas de extrema-direita que não têm compromisso com fatos e associam Fauzi à esquerda, onde, ao que tudo indica, ele nunca esteve.)

Do ponto de vista interpretativo, precisamos perceber que várias discordâncias em relação a esse episódio e àqueles tempos são legítimas. Desde que respeitemos os fatos.

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Não vou ficar em cima do muro: acho absurdamente ingênuo que os militantes de 2013 tenham se disposto a bancar qualquer personagem apenas por ele estar contra o Estado. E não por desconhecer os abusos do Estado.

Mas porque o Rio, historicamente, é um território disputado por mafiosos (as tais milícias) e por traficantes. Ignorar isso significa, sim, dar margem à infiltração de bandidos na disputa política legítima. Ou as milícias estavam adormecidas, vendo tudo de camarote?

Isto para não falar da infiltração de agentes políticos nas manifestações de esquerda. Qualquer pessoa que tenha frequentado naqueles anos uma assembleia estudantil sabe que a preocupação com os P2, os inflitrados, beirava a paranoia.

Nesse caso, por espontaneísmo, por inexperiência política, ativistas muito bem intencionados (nas melhores hipóteses, que parece ser o caso de Elisa) optaram por defender todo mundo de um inimigo único, ou que era percebido como único: o Estado.

Um erro elementar, claro. Que não está sendo reconhecido pelos defensores incondicionais dos ativistas.

Denunciar criminalização de quem estava apenas resistindo é uma coisa. Assinar embaixo de tudo o que fizeram, outra.

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E aí temos de discutir os black blocs também, pois não? (Neste momento minha lista de 4.444 amigos se reduz para 4.443, 4.442, 4.441…)

Pois a defesa incondicional de mascarados também foi uma característica daqueles tempos. Todos os que enxergávamos una distorção naquele “método”, como se o método tivesse uma pureza em si, uma pureza original, fomos também demonizados.

E fica cada vez mais evidente que tinha de tudo entre os mascarados. E que algumas daquelas ações (e não estou nem falando das bem intencionadas) contribuíram para a repressão. Pior: faziam parte da estratégia de repressão.

Vamos defender Elisa Quadros, a mulher, a mãe? Claro. De fato está rolando muita cafajestagem por aí. Misógina inclusive.

Mas o que foi feito em 2013 deveria estar em debate, sim. Debate sério, jornalístico ou não, sem determinadas criancices raivosas e espírito de vendetta.

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Não mudaremos nada em 2020 e nesta década (sim, para mim a década já começou) sem um mínimo de maturidade no debate.

Quem quiser espernear (excluir, eliminar) pode inventar um novo tipo de debate: o debate esperneandi.

Ou aderir ao jornalismo esperneandi. Ou ao ativismo esperneandi. Ou classificar tudo de jornalismo canalha.

A concatenação de fatos e a interpretação da história tendem a ser mais complexas.

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