
Li sobre Cilia Flores, mulher de Nicolás Maduro, e a comparação com Michelle Bolsonaro me veio de imediato. Não pela ideologia, nem pela defesa de governos, mas pela postura diante do poder, do risco e da história.
Cilia Flores construiu uma trajetória própria e, no momento mais extremo, escolheu permanecer ao lado do companheiro. Michelle Bolsonaro é uma fanática religiosa acessória, que tentou emplacar uma candidatura própria Planalto e que fez questão de aparecer sorridente enquanto o marido patético reclamava de crises de soluços para o enteado Carluxo, que ela odeia.
Na madrugada de 3 de janeiro, forças especiais dos Estados Unidos sequestraram Maduro e Cilia Flores dentro do palácio presidencial em Caracas. A ação ocorreu junto com ataques à capital que, segundo autoridades venezuelanas, deixaram ao menos 80 mortos.
O casal foi levado à força para Nova York, onde está sendo “julgado”. Durante a operação, Cilia se recusou a sair sem o marido. Disse que não o deixaria sozinho. Não houve negociação, pedido de proteção separada ou tentativa de se salvar individualmente.
Cilia Flores tem 69 anos, nasceu em Tinaquillo, no interior da Venezuela, e cresceu em bairros populares do oeste de Caracas. Formou-se em direito, com atuação nas áreas trabalhista e penal. Ganhou projeção política ainda nos anos 1990, ao integrar a equipe jurídica que defendeu Hugo Chávez após a tentativa de golpe de 1992. Teve papel relevante na libertação de Chávez em 1994, passo decisivo para sua eleição à Presidência em 1999.

Antes de ser conhecida como “primeira combatente” — termo usado pelo chavismo no lugar de “primeira-dama” — Cilia já tinha carreira própria. Foi eleita deputada em 2000, reeleita em 2005 e, no ano seguinte, tornou-se a primeira mulher a presidir o Parlamento venezuelano, sucedendo o próprio Maduro no cargo. Em 2009, assumiu a vice-presidência do partido de Chávez. Em 2012, foi nomeada procuradora-geral. Só se casou com Maduro em 2013, depois de mais de 20 anos de relação.
Após assumir a posição simbólica ao lado do presidente, afastou-se dos holofotes e passou a atuar nos bastidores. Voltou à linha de frente em 2017, ao ser eleita para a Assembleia Constituinte, e, em 2021, retornou à Assembleia Nacional. No momento do sequestro, exercia novamente o mandato de deputada.
No plano internacional, foi sancionada por Estados Unidos e Canadá em 2018, após acusações de crimes contra a humanidade atribuídos ao governo Maduro. Em Nova York, enfrenta acusações semelhantes às do marido, que incluem conspiração ligada ao narcotráfico e posse de armamento pesado.
Dois sobrinhos de Cilia foram presos nos Estados Unidos e condenados, em 2017, por tráfico de cocaína. Cumpriram parte da pena e foram libertados em 2022, em troca de cidadãos norte-americanos detidos na Venezuela. O governo dos EUA afirma que eles planejavam enviar grandes carregamentos de droga a partir de estruturas ligadas à Presidência venezuelana.
Cilia, provavelmente, morrerá na cadeia. Michelle estará na praia com seu maquiador, falando em Jesus.