A coragem de Vivienne Westwood e o julgamento de Assange: o que está em jogo é a liberdade de expressão

Vivivenne Westwood

Por Sara Vivacqua

Vivienne Westwood, a designer de moda britânica internacionalmente reconhecida, se pendurou esta manhã em uma gaiola de ferro em frente à Corte Criminal Central, conhecida com Old Bailey, em Londres, em protesto contra o que tem sido considerado o julgamento do século, deliberadamente omitido pela mídia corporativa.

Enquanto o Brasil e o mundo discutem a interferência da “fake news” nos processos eleitorais e a liberdade de expressão e de imprensa, em tempos em que a informação transformou-se na commodity de maior valor, passa despercebido que, no dia 7 de setembro, será julgado o processo de extradição de Julian Assange do Reino Unido aos Estados Unidos.

Se deferida a extradição, se inaugurará um novo paradigma legal, o da extraterritorialidade jurisdicional dos EUA, que poderá punir atividades críticas ou jornalísticas sob o argumento da lei de segurança nacional de seu país.

Caso Assange seja extraditado, ninguém mais estará segundo em parte alguma do mundo por fazer publicações, sejam jornalísticas ou não. Bastará os Estados Unidos invocarem sua legislação para que outro país entregue o autor da mensagem.

Um absurdo completo que está sendo ignorado, daí a importância do ato de Vivienne Westwood. Ela vestiu amarelo, a cor do canário, o que simboliza a situação de Assange: o pássaro está na gaiola e não pode mais cantar livremente.

A prisão de Assange constrange os que defendem a democracia. Note-se que Arabia Saudita, Israel, Irã, China e Brasil, por exemplo, terão o precedente legal para arguir a extradição de críticos do sistema em seus países e submetê-los à prisão perpétua nos Estados Unidos.

Claro que são exemplos hipotéticos, já que jamais Irã ou China atenderiam a um pedido dos Estados Unidos nesse sentido. Mas o precedente estará aberto e China, Irã ou Arábia Saudita poderão fazer solicitações equivalentes.

Deve-se muito da democracia liberal aos Estados Unidos e Reino Unido, mas o julgamento que envolve esses dois países, que participaram com destaque do combate ao nazismo no século passado, poderá representar o mais duro golpe contra o sistema que, em teoria, garante liberdades individuais.

Assange foi indiciado pelo infame tribunal de espionagem da Virginia, que até hoje nunca absolveu um único réu, pela publicação de documentos confidencias que expuseram pela primeira vez ao mundo, não a simples guerra, mas os crimes de guerra e tortura perpetrados pelos dos Estados Unidos no Iraque, Afeganistão e Guantânamo. Se extraditado e condenado, Assange poderá ser punido com até 175 anos de prisão sob “medidas administrativas especiais”.

Nos tempos da pós-verdade e lawfare, onde o “auto de fé” supera a realidade, será ingênuo acreditar no poder da verdade ou da justiça, principalmente quando nosso direito de sabê-la vai sendo gradualmente corroído.

O que será de um mundo e o que restará da coragem jornalística quando o criador do Wikileaks, que expôs pela primeira vez os crimes dos Estados profundos, estiver trancado num porão americano, e sua chave jogada fora?

Poderemos mudar governo sem mudar de política, poderemos reformar sistemas políticos inteiros e aplicar as teorias políticas mais elaboradas, mas sem conhecer os fatos e as verdadeiras motivações dos que têm poder de definir o futuro da humanidade.

Todas as mudanças estarão falidas, e todas as teorias estarão superadas.

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Veja o vídeo da performance Vivienne Westwood, a estilista que se recusa a permanecer em silêncio quando os caçadores se aproximam para colocar na gaiola outros canários além de Assange:

 

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