A democracia precisa resgatar o falso bolsonarista. Por Moisés Mendes

“Os falsos bolsonaristas não imaginavam que, além de Bolsonaro, o Brasil enfrentaria uma pandemia que iria reafirmar o caráter fascista do eleito” -Foto: Agência Brasil

Originalmente publicado em EXTRA CLASSE

Por Moisés Mendes

Bolsonaro tinha um teto de apoio de 18% nas pesquisas, bem antes de levar a facada em setembro. O alargamento da sua base, principalmente a partir do incidente e até a eleição, foi forçada, circunstancial e artificial.

Bolsonaro teve o suporte de muitos que o rejeitavam porque não teriam outra escolha. Ele é quem poderia vencer Haddad.

Não havia outro candidato viável na direita tucana cheirosa e perdedora ou fora dela. É aí, nesse momento, que surge o que se configura depois como um falso bolsonarista.

É essa adesão inflada pelos órfãos do PSDB em 2018 que parte da classe média precisa ajudar a desfazer, quem sabe antes da eleição do ano que vem. Seria bom se fosse antes.

O falso bolsonarista deve se aliar aos esforços pelo resgate da democracia e assim admitindo que errou ao apostar em Bolsonaro pela exclusão de outros pretendentes.

Ele sabe que não é e nunca será bolsonarista, que fez até um certo teatro como bolsonarista, insinuou que estava com Bolsonaro, dividiu a família, mas era um oportunista.

Um oportunista no sentido de usar Bolsonaro para se livrar da ameaça de continuidade do lulismo com Haddad. O falso bolsonarista se bandeou para o lado Bolsonaro como antipetista, antiLula e anticomunista.

Mas ele sabia que, na essência, não seria nunca um bolsonarista. O falso bolsonarista é alguém rico ou da classe média (às vezes é o pobre mesmo), mas nem sempre um ultraconservador na política, nem necessariamente um reacionário nos costumes.

Pode ser somente um liberal ressentido com quatro derrotas, uma atrás da outra, e que não queria saber mais de Lula e do PT e os que eles significam no poder

As democracias funcionam assim. O falso bolsonarista entrou numa fria, por achar que Bolsonaro faria movimentos que acabou não fazendo.

Estava no horizonte de falsos bolsonaristas que, logo depois da posse, o sujeito iria caminhar em direção ao centro. Os que chegam ao poder, com as exceções de sempre, se protegem como centristas.

Bolsonaro tinha a opção de agir com menos agressividade e ampliar seu lastro político, sem se afastar muito do bolsonarismo de raiz. Mas caminhou ainda mais para a extrema-direita.

O falso bolsonarista perdeu. Esperava que o Bolsonaro do discurso de 21 de outubro, transmitido ao vivo para sua claque na Avenida a Paulista, fosse um blefe.

Que o Bolsonaro ameaçador, capaz de mandar inimigos para a ponta da praia ou para fora do país, jogava para a torcida às vésperas do segundo turno. E que o sujeito jamais voltaria a exaltar torturadores.

Os falsos bolsonaristas não imaginavam que, além de Bolsonaro, o Brasil enfrentaria uma pandemia que iria reafirmar o caráter fascista do eleito.

Por isso, pensar que todos os eleitores de Bolsonaro eram ou poderiam vir a ser bolsonaristas é ingenuidade política. Assim como foram ingênuos os que cometeram o erro de achar que Bolsonaro não seria Bolsonaro.

É um simplismo supor que tudo se resolve com o ressentimento que punirá para sempre o eleitor eventual de Bolsonaro.

A democracia precisa tentar trazê-lo de volta para a realidade. E a realidade é o terror criado pela política da morte do governo.

O discurso, os atos e as orientações de Bolsonaro matam gente, matam a economia, florestas, empregos e esperanças. O falso bolsonarista sabe que é um atormentado que já saltou ou irá saltar fora.

O esquerdismo que o despreza deve achar que, mais adiante, daqui a muitas gerações, esses eleitores eventuais de Bolsonaro (que alguns consideram tão impuros) serão substituídos por outros, das novas gerações. Porque esses que estão aí seriam cidadãos imprestáveis.

Se tivesse sido assim na França colaboracionista, muitos teriam de deixar de ser cidadãos franceses.

Dizer que o falso bolsonarista está condenado a pagar para sempre pelo erro da adesão é agir quase como Bolsonaro.

O falso bolsonarista deve ser convidado a fazer a coisa certa, e a coisa certa é lutar pela democracia contra a barbárie e o fascismo.

Não significa ser atraído para as esquerdas, mas voltar a ser um democrata na integralidade. O bolsonarista que entrou de gaiato no projeto da extrema-direita não pode ser mandado para a ponta da praia da política pela esquerda pura e imaculada.

Sem o resgate do falso bolsonarista, não há como estancar o genocídio e começar a reconstrução do país. Foi o que o mundo fez para se livrar do nazismo.