A derrota de Flávio escancara a miopia política de Ricardo Nunes

Atualizado em 26 de outubro de 2026 às 20:19
Cegos em tiroteio Imagem: reprodução

Enquanto tenta se defender do pedido de prisão apresentado à Justiça Eleitoral por conta da denúncia de sabotagem dos ônibus no segundo turno, Ricardo Nunes parece não ter compreendido a dimensão da derrota política que acaba de sofrer em São Paulo.

Na madrugada desta segunda-feira (26), o prefeito recorreu à palavra “reviravolta” para explicar a avalanche de votos de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro.

Reviravolta?

O que ele não enxergou? Porque a virada não aconteceu por obra do acaso, nem se explica apenas pela picaretagem das pesquisas.

Nunes não foi capaz de perceber que alguma coisa estava acontecendo nas ruas, nas redes, nas estações de metrô e nos locais de mobilização popular. Uma energia nova, protagonizada pelos jovens, surgiu fora dos limites das estruturas tradicionais e pegou o prefeito de calças curtas.

A capital tornou-se um dos epicentros dessa movimentação. E o que ganhou força ali, debaixo do seu nariz, encontrou ressonância em outras partes do país.

As imagens das estações de Metrô e das ruas tomadas por pessoas não contam, sozinhas, toda a história dessa eleição. Mas ajudam a compreender a magnitude de uma mobilização que muitos julgavam improvável.

Lula não apenas venceu em São Paulo. Ampliou sua votação de 46,58% no primeiro turno para 55,5% no segundo, chegando a uma vantagem de 766 mil votos sobre Flávio Bolsonaro. Venceu em 43 das 57 zonas eleitorais, virando o jogo em oito se comparadas aos votos do primeiro turno.

É um recado político que deveria pôr a pulga atrás da orelha de qualquer governante, especialmente daquele que apostou suas fichas numa aventura que se revelou derrotada.

Ricardo Nunes chegou à prefeitura como vice de Bruno Covas, indicado pelo golpista Michel Temer e com o apoio de Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal e um de seus principais aliados políticos, tido como uma espécie de prefeito informal de São Paulo.

Leite está preso desde setembro, investigado por suspeitas de ligação com o PCC e de participação em um esquema de infiltração da facção no transporte coletivo da capital.

Se compreendesse o que estava acontecendo, o prefeito talvez tivesse avaliado de outra maneira a decisão de sabotar a circulação dos coletivos no domingo.

A Justiça Eleitoral havia determinado a circulação de 100% da frota prevista para dias úteis. A coligação de Lula denunciou o descumprimento da ordem, e a deputada Sâmia Bomfim pediu a prisão do prefeito, do secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e do presidente da SPTrans.

Agora cabe à Justiça apurar as responsabilidades e decidir sobre as consequências do episódio.

Nunes sai dessa eleição sem a vitória de Flávio e diante de uma cobrança judicial que não pode ser resolvida com declarações à imprensa. O bolsonarismo, que lhe serviu de sustentação, foi para o brejo.

O tiro pode ter alvejado seu pé. Pois agora terá de lidar com uma realidade nova, que aparentemente veio para ficar: os jovens dispostos a cobrar por direitos e condenar o que consideram injustiças. É a voz rouca das ruas repaginada na estridência de quem tem pressa e que mostrou, frente a frente com o fascismo, que não tem medo de cara feia.

Tudo o que o prefeito não precisava neste momento em que se vê isolado no quinto andar do Palácio Anhangabaú.

Nunes com o aliado Milton Leite, preso desde setembro por suspeitas de ligação com o PCC e de participação em um esquema de infiltração da facção no transporte coletivo da capital Imagem: reprodução
Jose Cassio
JC é jornalista com formação política pela Escola de Governo de São Paulo