A desgraça de Moro pode ser resumida em uma pergunta: Quem confiaria em juiz ladrão? Por Joaquim de Carvalho

Moro, em imagem publicada na capa da Veja: que confiaria em “juiz ladrão”?

A desgraça de Moro no governo Bolsonaro, STF e Congresso era previsível: quem confiaria em uma pessoa que é vista como quem traiu seu compromisso de imparcialidade quando exerceu a magistratura?

Quando agiu assim, na cadeira de juiz, Moro foi útil para aqueles que queriam um atalho para o poder, tirando da disputa a liderança mais popular do país.

Mas, cumprida a tarefa, Moro ficou sem utilidade e se tornou um problema para seus antigos aliados. Estes sabem que Moro fez o que não poderia como juiz.

Se ele torceu o direito e ignorou a falta de provas para condenar Lula, pode fazer qualquer coisa para atingir seus objetivos.

Há quem entenda que, à frente da Lava Jato, Moro se comportou como um juiz que vende sentença.

Por esse raciocínio, a nomeação para o Ministério da Justiça foi a recompensa pelos serviços prestados na criação do ambiente para derrubar Dilma Rousseff e na condenação e prisão de Lula, fatores decisivos para a eleição de Bolsonaro.

Frise-se: o problema para Moro é que quem o nomeou sabe o jogo que ele é capaz de jogar.

E se traiu o seu compromisso de magistrado, é capaz de qualquer coisa, inclusive de atuar para tirar Bolsonaro da cadeira e sentar-se no lugar.

É uma situação que lembra o que me foi falado por um cartola de futebol, alguns anos atrás.

Ele era dirigente da Portuguesa de Desportos, que tinha um jogo decisivo contra a Portuguesa Santista.

Em disputa, uma vaga para a fase seguinte do Campeonato Paulista.

A partida terminou empatada em 4 a 4, resultado que levou à classificação da Portuguesa de Desportos.

Muita gente desconfiou que o goleiro da Portuguesa Santista havia tomado muitos gols porque havia se vendido.

Na época, foram publicados rumores na imprensa.

Um dirigente envolvido no episódio me confirmou anos depois que o goleiro havia mesmo sido comprado e, como parte do acordo, a Portuguesa o contratou no ano seguinte.

O atleta, porém, nunca entrou em campo. Nem sequer treinava com o grupo. Ninguém confiava nele. Se havia se vendido antes, poderia se vender depois.

Isolado, recebia salário, mas ficava em casa. Pouco tempo depois, deixou o futebol profissional.

O mesmo acontece com Moro.

Se, como juiz, ele “se vendeu” (no sentido de que produziu uma sentença sob medida para os propósitos de Bolsonaro), não é minimamente confiável.

Tudo indica que, se pudesse, Bolsonaro demitiria Moro, mas o custo dessa decisão seria alto demais para ele, em razão dos apoiadores comuns no eleitorado.

Para essa massa, Bolsonaro poderia ser visto como traidor ou ingrato, já que todos sabem o papel de Moro no enfrentamento a um adversário comum: Lula.

Sem Moro, Bolsonaro não se elegeria, já que teria de enfrentar o ex-presidente nas urnas.

Uma indecência que precisa ser anotada: juiz julgar adversário.

O mais provável, nesse quadro, é que Bolsonaro passe a fritá-lo publicamente. Não o ouviria para áreas afetas à sua pasta, como a nomeação do procurador geral ou de magistrados para as cortes superiores.

Faria de Moro um morto-vivo na Esplanada dos Ministérios.

Resta saber até que ponto Moro é capaz de dobrar sua espinha e ser humilhado publicamente.

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