A dobradinha de Zambelli com delegados da PF começou na Lava Jato, com vazamentos e ação conjunta. Por Caique Lima

Eduardo Mauat e Carla Zambelli

Nesta semana, Zambelli antecipou o que chama de “covidão”, uma operação da PF contra governadores, e disse que não seria burra de falar sobre um vazamento do órgão em rede nacional.

Mas ela não conta que, em 2016, obteve informações privilegiadas acerca do pedido de prisão preventiva de Lula.

Ela soube antecipadamente por um delegado da Polícia Federal que promotores de São Paulo pediriam a prisão do ex-presidente no caso do triplex em Guarujá.

Para esse delegado e Zambelli, Lula era um troféu que eles não queriam ver nas mãos do Ministério Público de São Paulo — que, a rigor começou a investigar o caso do triplex do Guarujá bem antes da Lava Jato. 

Essa investigação, comandada pelo promotor Cássio Conserino, resultou na absolvição de todos os citados, inclusive Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS.

Só Lula seria condenado, mas porque a parte da investigação referente a ele seria enviada para Curitiba, onde, na prática, a sentença condenatória de Moro já estava pronta antes mesmo da abertura do inquérito.

Um mensagem trocada entre Mauat e Carla Zambelli, a que o DCM teve acesso, mostra que Mauat estava incomodado com a repercussão do pedido de prisão que seria feito.

Aparentemente, ele queria que a PF — e seu trabalho especificamente — não fosse ofuscado pela ação em São Paulo. A líder no Movimento NasRuas pede, então, que um colaborador faça um banner para exaltar a Polícia Federal:

Conversa de Zambelli com colaborador do movimento NasRuas

“Eduardo Mauat. Ele vai prender o Lula”, escreveu a atualmente deputada.

Seis dias antes (04/03/2016), o ex-presidente foi vítima de condução coercitiva e a Polícia Federal fez uma varredura no sitio em Atibaia. O comandante do trabalho: o delegado da PF Eduardo Mauat.

O nome do delegado, no entanto, não foi noticiado publicamente como um dos possíveis agentes para prisão do ex-presidente neste dia e, mesmo assim, Zambelli pediu para que um colaborador fizesse uma postagem o exaltando, com o logo do NasRuas.

Quatro dias depois depois do pedido formulado por promotores de São Paulo — que acabaria negado por uma juíza da capital –, Mauat criticou publicamente o Ministério Público de São Paulo.

“Não é função deles. Então, eles queriam tirar foto com o Lula. Achei isso ridículo”, disse, em entrevista. Maut, assim como Deltan Dallagnol e Moro, queria Lula só para ele.

Segundo um colaborador do movimento que pediu sigilo, Zambelli queria um banner que mostrasse o delegado prendendo Lula.

Ao ser questionada se isso não seria precipitado, ela disse: “eu não ligo pra processo”. Afirmou também:  “eu assumo”.

Ironicamente, a militante do NasRuas que pedia para que um colaborador fizesse um post com mensagem de apoio à autonomia da Polícia Federal hoje aplaude o presidente que aparelha o órgão.

Zambelli e Mauat:

Eduardo Mauat trabalho na Lava Jato até 2017, quando foi afastado pelo diretor-geral à época, Leandro Daiello.

Seu último ato na operação foi justamente pedir mais tempo para investigar Lula.

Após sua saída, gravou um vídeo exclusivo para o movimento de Zambelli, em que disse que “a Lava Jato não é uma operação que pertence a alguns burocratas, que podem oxigenar ou deixar de oxigenar as pessoas que eles bem entenderem”.

Delegado Eduardo Mauat fala sobre seu afastamento

Delegado Eduardo Mauat dá a 1ª declaração após seu afastamento no dia 02/07.#VoltaMauat

Posted by NasRuas on Wednesday, July 6, 2016

Ele ainda disse que, enquanto Daiello fosse diretor-geral, ele não retornaria à Lava Jato.

Por isso, a ADPF (Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal), entidade da qual Mauat fez parte, pedia a saída de Daielle da direção-geral.

A associação foi seguida pelo NasRuas, que logo depois passou a militar pela mesma pauta:

A ADPF ainda levou Zambelli para debater em simpósios, justamente a militante financiada pelo dono de uma empresa investigada pela Lava Jato por corrupção.

Zambelli no simpósio da ADPF em Manaus

Mas Mauat não era somente próximo de Zamebelli, imagens mostram sua proximidade com outros militantes envolvidos com Jorge Feffer, o milionário do Grupo Suzano que financiou ações da extrema direita:

Mauat e Zambelli em evento do Avança Brasil, o qual tinha o “príncipe” como conselheiro
Bia Kicis, também financiada por Jorge Feffer

Vale lembrar ainda que Mauat e o atual superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro atuaram juntos no Ministério da Justiça quando o titular era Sergio Moro. O primeiro no Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional e o segundo, na Diretoria de Tecnologia da Informação e Inovação do ministério.

A operação da PF contra o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, antecipada por Zambelli no que chama de “covidão”, aconteceu justamente um dia depois de Muzzi assumir a superintendência do Rio de Janeiro.

O DCM procurou o Carla Zambelli e Eduardo Mauat, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

O espaço está aberto para a manifestação deles.

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