‘O que entendemos por reputação não é mais que a soma de erros que cometemos nesta Terra’

Nelson Rodrigues teria dimensão global se não fosse um único detalhe: ele escrevia em português

A língua portuguesa condenou Nelson Rodrigues à periferia.

Escrever em língua portuguesa não é fácil. Você se condena a uma solidão planetária.

Isso me ocorreu ao ler, nos últimos dias, Nelson Rodrigues e Oscar Wilde. Eles foram dois dos maiores frasistas que a humanidade produziu. Irônicos, espirituosos, inteligentes, divertidos.

Mas compare a dimensão de cada um.

Oscar Wilde é uma referência mundial. Nelson Rodrigues, uma referência apenas nacional.

A única explicação para isso é o idioma dos dois. O inglês de Wilde projeta. O português de Nelson Rodrigues esconde.

É uma pena.

Nelson Rodrigues é aquele autor que você deve ler com uma caneta e um caderninho, para ir anotando as frases. Leio O Berro Impresso, a coletânea de crônicas que ele escreveu na revista Manchete Esportiva na década de 1950, e sou assaltado torrencialmente por frases memoráveis.

Esta, por exemplo: “O que entendemos por ‘reputação’ não é mais que a soma dos enganos que cometemos nesta Terra.” Ele falava de Didi, um dos maiores armadores do futebol brasileiro, bicampeão mundial em 1958 e 1962. Didi tinha a fama de não suar, de não ter garra, gana. Segundo Nelson Rodrigues, o torcedor às vezes podia pensar que ele ia se sentar no gramado e “ler um gibi”.

Mas não.

Num jogo entre Brasil e Uruguai, em 1959, conta Nelson Rodrigues, Didi mostrou quanta bravura tinha em cenas acrobáticas de pugilato numa briga generalizada entre os jogadores das duas seleções. Daí a definição rodriguiana de “reputação”.

Mesmo quando era supostamente ofensivo Nelson Rodrigues tinha tanta graça que fazia você rir em vez de ficar melindrado. Veja como ele se referia a nós, paulistas. “O pior tipo de solidão é a companhia de um paulista”. Como paulista, como paulistano, só posso aplaudir.

Nelson Rodrigues foi um gênio completo, absoluto. Lamentavelmente, a língua portuguesa o condenou à periferia, quando ele merecia o centro iluminado, bajulado em que está seu companheiro de frases primorosas Oscar Wilde — outro que você deve ler com caneta e caderninho na mão.