
O mundo iria acabar a partir do que aconteceria no Brasil em 1888, com o previsível fim da escravidão. Os jornais anunciavam: as fazendas e as cidades não terão trabalhadores, e os escravos não saberão o que fazer da vida quando libertos.
Mas pouco se fala hoje dos jornais criados por abolicionistas, incluindo empresários sinceros. Esses jornais existiram em vários Estados e suas histórias nos conduzem a mais uma conclusão assustadora: hoje, não há nada parecido.
A possibilidade de fim da escala 6 X 1 criou a mesma reação hegemônica do fim do século 19. O Brasil irá quebrar se acabar com um modelo de trabalho superado. Mas sem contraponto organizado de parte da elite, como aconteceu em 1888.
Não há nada, pelo ponto de vista dos empresários, nada semelhante aos jornais que apoiavam o fim da exploração de pessoas escravizadas. Nada. Nenhuma entidade empresarial tem posição categórica pela abolição das escala quase escravagista.
Um exemplo do que não temos hoje. Em 1882, na região do latifúndio gaúcho, um grupo de fazendeiros e profissionais liberais criou a Gazeta de Alegrete. Eram liderados pelo advogado e também fazendeiro Luis de Freitas Vale, o Barão do Ibirocay.
Foram criados, além do jornal, clubes emancipatórios liderados por lideranças da cidade. A sociedade de organizou para a libertação muito antes da abolição. Em 7 de setembro de 1884, a Gazeta anunciava: não há mais escravizados em Alegrete. Faziam festas nas fazendas e na cidade.
A escravidão é dada como encerrada no Rio Grande do Sul naquele ano de 1884. Era uma medida imperfeita, que possibilitava desvios provocados pelos interessados em ganhar dinheiro com a perspectiva do fim do trabalho cativo.
Muitos anunciaram a libertação, mas continuaram explorando o escravismo sob outros disfarces. Mas, no que importava, havia o gesto político com o aviso: não queremos mais transformar pessoas em escravos.
O importante é que a Gazeta de Alegrete, na terra dos bois e das ovelhas, é contemporânea da Gazeta da Tarde, o jornal que José do Patrocínio transforma em voz do abolicionismo. Mas a Gazeta de Patrocínio circulava no Rio de Janeiro. A Gazeta de Freitas Valle, em Alegrete.
Alegrete é a terra de Luiza de Freitas Vale Aranha, a mãe de Osvaldo Aranha, do próprio Osvaldo, e depois de Mario Quintana, João Saldanha, Paulo Cesar Pereio, Walmor Chagas, Laci Osório.
Ali, no meio do campo, o movimento abolicionista ganha impulso e inspira outras ações na mesma direção no resto do Estado. Com o predomínio de lideranças brancas, porque elas mandavam, aliadas a líderes negros emergentes.
Alguém imagina algo parecido hoje, em qualquer parte do Brasil, diante da reação quase escravocrata dos brancos que se negam a extinguir a escala 6 X 1?

Onde pode ser encontrado alguém do porte de um Barão do Ibirocay, que ganhou o título do Império por ser um abolicionista? Há abolicionistas hoje na elite brasileira, que ainda é flagrada de em vez quando explorando trabalho escravo?
Que essa elite escravista, se não quer ler o negro José do Patrocínio, leia o branco Fernando Henrique Cardoso em seu grandioso ‘Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional’, de 1963.
Que leia os historiadores mais jovens Jônas Marques Caratti (autor de ‘O solo da liberdade’, Editora Unisinos) e Marcelo Santos Matheus (‘Fronteiras da Liberdade’, da mesma editora), com histórias de gente, e não com teses trazidas do tempo da escravidão.
Dois livros com liberdade nos títulos. Leiam os arquivos das Gazetas e o jornal A Federação, o mais importante no Rio Grande do Sul na época, o jornal de Julio de Castilhos, também abolicionista.
Leiam os jornais dos positivistas e os folhetos e panfletos de cariocas, paulistas, baianos, produzidos em defesa da abolição. Não se descuidem das acusações, repetidas hoje, de que tudo que partia dos brancos era uma farsa. Não era.
Mas não procurem nada parecido nos jornais de hoje. Lembrem que A Província de São Paulo foi um jornal abolicionistas, com opiniões incisivas sobre o fim da escravidão.
Saibam que A Província é o nome original do que se chama hoje O Estado de São Paulo, o Estadão, que defende cautela no fim da escala 6 X 1, porque pode causar desagregação entre capital e trabalho.
Este é o título de um editorial recente do Estadão sobre o projeto: “Uma PEC feita para palanque”. No melhor estilo do jornalismo usado como trincheira pelos escravagistas. E que o Estadão, na sua origem, combatia.
A elite brasileira e o jornalismo por ela produzido retrocederam ao que existia de pior no começo do século 19, com chamadas como essa, para artigo de Malu Gaspar no Globo: ‘PEC que acaba com escala 6 x 1 tem potencial para emparedar o governo Lula’.
Quem emparedou Lula? Está no texto de Malu: Erika Hilton, a autora da ideia desastrada. A nova abolicionista. Atrevida, transgressora, negra e trans. O texto da colunista do Globo poderia estar em qualquer jornal escravista do século 19. Tentem imaginar Malu Gaspar cobrindo as campanhas contra a escravidão no final do século 19.
(Tenho a honra e a ostentação de dizer que, entre 1970 e 1973, trabalhei na Gazeta de Alegrete, o jornal criado em 1882 para lutar pelo abolicionismo. Comecei minha lida de repórter num jornal criado para lutar pela abolição. A Gazeta circula até hoje.)