Como entender a crise que castiga Portugal a ponto de levar o premiê a sugerir que os portugueses façam as malas

 

O jovem empreendedor Rui, com a mulher Vanessa, pensa em mudar para o Brasil

 

DE LISBOA

TODOS OS DIAS, ao acordar, o lisboeta Telmo Miranda, se encaminha para o hotel Sheraton, um dos melhores de Lisboa. Não se trata de um funcionário. Telmo escolheu a frente do Sheraton como o lugar para tentar ganhar a vida desde que os trabalhos que fazia na construção em Lisboa minguaram até, simplesmente, desaparecerem. Telmo, na casa dos 20 anos, solteiro, formação escolar modesta (foi até a quarta série), é, hoje, um flanelinha. Ajuda os motoristas a manobrarem na esperança de arrecadar dinheiro que lhe permita sobreviver. A falta de obras transformou-o, por alguns meses, num homeless. Ele vagava à noite por Lisboa à busca de um teto provisório – um shopping center, por exemplo. Recentemente, ao provar com fotos ser um morador de rua, Telmo ganhou uma pensão do governo português. É pequena, na casa dos 200 reais por mês, mas com isso ele conseguiu uma cama num apartamento cheio de pessoas numa situação parecida com a sua. “Estou pensando em ir embora de Portugal”, diz ele.

Raras vezes na história milenar de Portugal tantas pessoas acalentaram esse mesmo desejo. Ou, vistas as coisas por outro lado, tiveram essa mesma necessidade. Portugal, no meio do fogo da crise econômica que incendeia a Europa e ameaça torrar o euro, ficou pequeno demais para seus 11 milhões de habitantes. Um em cada três jovens está sem emprego – e sem perspectiva. Na população como um todo, a taxa de desemprego é de 15%, três vezes maior do que era no momento em que Portugal aderiu à moeda comum, o euro, há dez anos. Tão complicada é a situação que, há pouco tempo, o primeiro ministro Pedro Passos Coelho sugeriu aos desempregados que procurassem uma nova vida em países lusófonos como Brasil e Angola. “Emigra tu, pulha!”, respondeu um internauta num eco ao sentimento de muitos portugueses diante da sugestão de Passos – um economista conservador de 47 anos que assumiu o poder depois que a crise triturou o governo socialista de José Sócrates.

Miranda virou flanelinha para sobreviver

Portugal está naquela melancólica situação em que as coisas têm primeiro que piorar para depois, se o vento ajudar, melhorarem. Na hipótese mais otimista, atravessa uma recessão forte em 2012 para, a partir de 2013, voltar a crescer. Na pior, quebra, é expelido do euro e retorna ao escudo, a velha e frágil moeda que antes de ser aposentada em 1992 era um símbolo do atraso português – decorrente, em boa parte, do caráter antiprogresso de Antônio Salazar, o ditador que dominou Portugal por mais de um terço do século XX. (O “luxo da técnica”, o “delírio do mecânico” e a “vertigem do consumismo”, escreveu Salazar, farão com que “a civilização acabe por regressar cientificamente à selva”.)

Não bastasse seu fanatismo contra novidades e inovações, Salazar legou a Portugal, adicionalmente, cofres arruinados por despesas colossais em guerras na tentativa inútil de manter sob domínio de Portugal as colônias da África. Salazar só deixou o poder depois que um derrame o incapacitou e depois o matou, em 1970.  Não é possível entender o drama português no presente sem atentar para o papel deletério de Antônio Salazar no passado com a monumental miopia que o impediu de enxergar o fim da era colonial. Salazar, para a história de Portugal, representa o oposto do Marquês de Pombal, o brilhante administrador que reconstruiu Lisboa depois do terremoto de 1755.

O futuro do país depende, a rigor, da “Troika” – a palavra da moda na Europa. Troika é a designação em eslavo para triunvirato, governo de três. Na Rússia pós-Lênin, o termo se consagrou com Stálin, que se apoiou em duas sucessivas troikas para derrotar o rival Trotsky na sucessão de Lênin. Na Europa moderna, Troika é o poder conjunto da União Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional. São as três instâncias financeiras que estão analisando os pleitos de países em apuros como Portugal e Grécia. A boa vontade da Troika é vital para que empréstimos salvadores sejam dados. O dinheiro sai em parcelas – e a torneira é fechada se as duras condições impostas não forem cumpridas. Nos países economicamente doentes da Europa, a Troika hoje manda mais que as autoridades financeiras de cada um deles.

Ficou claro que uma supervisão internacional era necessária depois que vieram à luz detalhes da Grécia. Para se ajustar às exigências econômicas colocadas para os candidatos a adotar o euro, a Grécia fez pouco mais que o esforço de fabricar números falsos. Entre os especialistas em economia grega, ninguém acreditava nas estatísticas apresentadas pelo país – uma terra em que não pagar impostos é quase que uma questão de honra.  O problema é que os demais países do euro acreditaram. A estrita supervisão de fora, que tem gerado protestos nacionalistas em muitos lugares, nasceu da lição aprendida com o caso grego. A Troika, de alguma forma, é filha da manipulação estatística grega.

Com o influente banqueiro Ricardo Salgado, do banco Espírito Santo: dias de inquietação em Portugal

Portugal está sujeito à mesma fiscalização – mas quer deixar claro que não é a Grécia. “Somos um povo trabalhador e poupador”, diz o influente banqueiro Ricardo Salgado, presidente e acionista do Banco Espírito Santo. “Os gregos simplesmente não pagam impostos.” Com 9 000 empregados e 828 agências, o Espírito Santo está, obviamente, sujeito aos humores da economia portuguesa. O banco registrou lucros de meio bilhão de euros em alguns anos recentes, mas em 2011 perdeu 100 milhões.

Salgado, membro da quarta geração da família Espírito Santo, espera que o banco cresça, nos próximos anos, em suas atividades fora de Portugal. No Brasil, por exemplo. Ele nota uma espécie de efeito colateral positivo nas presentes dificuldades do país: o Estado vai ser obrigado a desinchar. “Na época do Salazar, o Estado respondia por 30% da economia”, diz ele. “Agora, é quase 50%.” (Um jornal local percebeu outro: “Andamos mais a pé com a crise” era sua manchete alguns dias atrás.) Em sua voz lenta, pausada, diferente da rapidez com que os portugueses em geral se expressam, Salgado afirma que, mais para a frente, Portugal pode e deve tirar proveito de sua situação geográfica. “Apesar de periférico, o país está no centro da globalização do Atlântico: perto da América Latina e da África.”

Portugal se comprometeu com a Troika a seguir a receita clássica dos países endividados: reduzir os gastos e aumentar a arrecadação. A renda mínima para que as pessoas paguem impostos se reduziu. Algumas taxas foram elevadas. Paralelamente, existe um projeto de privatização ao fim do qual é provável que estatais do calibre da Tap passem para mãos privadas. “Somos um povo historicamente cumpridor”, diz Salgado. “Faremos o que foi acordado com a Troika.”

Antes da presente crise, Portugal experimentou um período de crescimento e modernização com o fim do salazarismo, num processo parecido ao vivido pela vizinha Espanha pós-franquismo. A prosperidade conheceu seu ápice com a adesão ao euro. Foi fácil para o país conseguir empréstimos que deram outra face, por exemplo, à infraestrutura malcuidada do país. As estradas portuguesas se tornaram tão boas quanto as melhores da Europa.

Tudo parecia correr a favor de Portugal – até a aparição da primeira grande crise financeira da economia globalizada, em 2007. As dívidas do país, que pareciam perfeitamente administráveis num ciclo de crescimento econômico mundial, foram se tornando mais e mais difíceis de carregar num ambiente de recessão generalizada. A economia de Portugal estava preparada para um planeta pujante – não inquieto e assustado. Logo ficaria claro que, para não se tornar inadimplente, Portugal teria que receber empréstimos de emergência. A contrapartida era – e é – um plano de austeridade máxima: foi não por conseguir aprová-lo no Parlamento que o governo de Sócrates desabou, no ano passado.

Na comunidade de negócios, estabeleceu-se a percepção de que 2012 é o ano chave para o futuro de Portugal. “Se aguentarmos até dezembro, o resto fica mais fácil”, diz Zeno Cunha, dono de uma cadeia de restaurantes. Brasileiro, Cunha foi para Portugal no início dos anos 1990, e acabou se beneficiando da modernização do país. Cunha começou com um restaurante num clube de golfe em que oferecia sucessos da cozinha brasileira quase desconhecidos, então, dos portugueses, como feijoada, caipirinha e picanha.

Os negócios de Cunha cresceram junto com Portugal – e agora sofrem junto com Portugal. Para sobreviver, e evitar o que considera a pior hipótese, retornar ao Brasil, Cunha está seguindo um regime parecido com o de Portugal. Cortou despesas: cada restaurante seu tem hoje metade dos funcionários, e estes estão tendo que ser mais versáteis – capazes de servir uma mesa ou, quem sabe, preparar uma picanha. Capitalizou-se vendendo alguns deles. Correu atrás de receitas novas, como servir comida nos cada vez mais frequentes leilões de carros cujas prestações os donos deixaram de pagar. “São conhecidos como ‘carros de uma chave só’”, diz Cunha. “As seguradoras rebocam o carro durante a madrugada, enquanto o dono dorme. Não há, por isso, a segunda chave.”

O brasileiro Zeno iniciou os portugueses na picanha e se deu bem, mas a crise agora assusta

Com a estagnação econômica, Portugal corre o risco de perder cérebros. O empreendedor Rui Farinha, 37 anos, dono de uma empresa que oferece transporte vip a executivos em Lisboa, afirma que quem “souber inovar” nos negócios em Portugal vai atravessar bem a tormenta. Mas seu otimismo sorridente – expresso até na terceira gravidez de sua mulher, Vanessa — não impediu que ele estudasse a possibilidade de se transferir para o Brasil.  Farinha imagina que possa se dar bem se montar no Rio de Janeiro um serviço que dê condução segura aos turistas. “O Brasil, com segurança, vai se tornar o melhor lugar do mundo para você morar”, diz ele, sob o olhar aprovador e claramente satisfeito da mulher.

O casal contraria uma característica forte da alma portuguesa: o pessimismo misturado à nostalgia do passado imperial — e a um fatalismo conformista que se traduz na ausência de manifestações de protesto agressivas como as da Grécia ou as da Espanha. “Fizemos até uma revolução sem tiros”, diz o taxista Fernando Marques. Ele se referia à Revolução dos Cravos, de 1974, que pôs fim ao salazarismo. O traço sombrio está impresso em múltiplas partes de Portugal. Numa livraria de Lisboa, um livro exposto com destaque nestes dias, escrito pelo jornalista Rui Moreira, tem o seguinte título, em letras enormes: “Rumo ao Abismo”.

A definição mais acertada do abismo seria a exclusão portuguesa da comunidade do euro, caso a Troika julgue o país um caso perdido. É possível – mas não provável.  Pouco tempo atrás, numa passagem por Lisboa, o economista americano Paul Krugman, Nobel em 2008,  ganhou as primeiras páginas da mídia portuguesa ao dizer que as chances de Portugal de permanecer no euro são de 75%. “Economistas gostam de probalidades estatísticas”, diz o banqueiro Salgado.

Bem mais importante que o chute de Krugman é o parecer da grande potência europeia, a rica, pujante, admirada, cortejada, invejada e detestada Alemanha. Numa cena de bastidor de uma reunião sobre o euro registrada por uma câmara indiscreta de uma tevê portuguesa, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, emitiu sinais favoráveis da cadeira de rodas em que está confinado desde que sofreu uma tentativa de assassinato. Seu par português se aproximou e, em busca da boa vontade alemã, ponderou que Portugal estava fazendo a lição de casa. Schauble assentiu.

A simpatia alemã não é tudo – mas, nestes tempos em que os únicos cofres cheios na Europa são os da Alemanha, é muito quando se pensa no amanhã de Portugal. Os constantes pedidos de empréstimos feitos à Alemanha acabaram dando à chanceler Angela Merkel – pelas sistemáticas negações — o apelido de “Frau Nein”. (Dona Não, em alemão.) Um sim pode fazer toda a diferença. Mas ele só vai acontecer se Portugal provar que assimilou virtudes cardeais germânicas na economia, a começar pelo respeito ao orçamento e, especificamente agora, a metas acordadas. Feito isso, o percurso da recuperação vai ser sofrido, mais longo com certeza do que os portugueses gostariam que fosse – mas ao final dele Portugal marchará para um futuro animador de inserção global, sob a égide do euro, em vez de mergulhar no isolacionismo derrotado que o retorno do escudo fatalmente traria.

 Este artigo foi originalmente publicado na revista Exame