A escolha acertada de Renato Janine Ribeiro para a Educação

Atualizado em 30 de março de 2015 às 13:48
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O anúncio foi dado de maneira inesperada na sexta-feira (27), por volta das 19h. O Valor Econômico informou que seu colunista, o professor da USP Renato Janine Ribeiro, seria o novo ministro da Educação do segundo governo de Dilma Rousseff. A confirmação veio horas depois, do próprio Palácio do Planalto.

Janine entra no governo, a partir do dia 6 de abril, num momento de humores exacerbados. Seu antecessor, o ex-governador do Ceará Cid Gomes, caiu após dizer com todas as letras que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, é um “achacador” e um falso aliado da presidência. Quem anunciou ao vivo a demissão foi o próprio Cunha.

A decisão pelo professor certamente não leva em conta apenas o currículo dele. Renato Janine Ribeiro formou-se na própria Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, fez mestrado pela Université Paris 1 Pantheon-Sorbonne e, depois, terminou doutorado de volta ao Brasil. Seu pós-doutorado foi pela British Library e ele lecionou na Universidade de São Paulo  por cerca de 20 anos, além de ter 18 livros publicados.

Sua especialidade não é a pedagogia ou o ensino, mas sim a filosofia política. Estudou Thomas Hobbes e seu “Leviatã”. Em artigos levantou questões sociais e do poder em Brasília. Nunca poupou críticas ao governo Dilma. Janine apontou falhas na política de alianças do governo, vê um vácuo de ética entre políticos e um favorecimento sistemático da corrupção neste processo.

Mas o filósofo também pensa sobre a educação e, há quatro meses, publicou um artigo em que defendia a formalização de currículos mais flexíveis nas escolas — ou seja, a inclusão de temas atuais.

Ele foi orientado por Marilena Chauí, docente que tem simpatia pelo PT e foi uma das fundadoras do partido. Chauí fez parte da Secretária Municipal de Cultura de São Paulo de 1989 a 1992, durante a administração de Luiza Erundina. Marilena optou, depois da experiência, por voltar às pesquisas na USP.

Desde a redemocratização, em 1985, o Ministério da Educação abrigou advogados, médicos, engenheiros e pouquíssimos professores mais atuantes. Em 1995, o ministério foi assumido por Paulo Renato Costa Souza, político tucano e economista. Com sua entrada, a pasta foi assumida sucessivamente por homens formados em economia, exceto pelos advogados Tarso Genro e Fernando Haddad.

Um ministro-filósofo como Renato Janine Ribeiro pode ajudar a repensar efetivamente os currículos dos ensinos básico e médio. Janine também pode ajudar a impulsionar uma agenda progressista para educadores, o que eventualmente culminaria em aumentos salariais ou das condições de trabalho no setor.

A escolha de seu nome honra um pouco mais o lema da “pátria educadora”. E também apaga um pouco o incêndio de novos ministros polêmicos, como Kátia Abreu e Gilberto Kassab.

Em entrevistas à imprensa, o professor Vladimir Safatle, outro filósofo pela USP, afirmou que o grande problema do cenário nacional é a abundância de políticos profissionais e a falta de representantes de determinadas classes que possam gerar políticas públicas mais eficientes.

Renato Janine Ribeiro não é um político profissional, mas é um professor que tem empatia pela cultura acadêmica e pelos problemas do Brasil. É um pensador da educação.