A esquizofrenia da mídia sob a era Bolsonaro desnuda o caráter elitista do jornalismo corporativo. Por Tiago Barbosa

POR TIAGO BARBOSA

Enquanto criticam o autoritarismo, o obscurantismo e a relação do clã com a milícia, os veículos derramam loas editoriais ao neoliberalismo do governo.

Essa bipolaridade escancara um paradoxo mortal para os pilares de uma imprensa comprometida, em tese, com o bem-estar da sociedade.

A quem serve, afinal, um jornalismo entusiasta de uma política econômica refratária à maioria da população e conduzida por pessoas alheias aos direitos humanos e à desigualdade?

O subtexto desse apoio incondicional é a sinalização positiva ao vale tudo em nome do lucro dos privilegiados – mesmo às custas do bom senso e do sacrifício da audiência.

A Folha de SP deflagrou campanha para atrair assinantes após boicote do governo por matérias sobre caixa 2 e implicações no caso Marielle.

Mas venera Paulo Guedes por reduzir gastos sociais com saúde e educação e dilapidar o Estado brasileiro – medidas com impacto negativo sobre a massa de leitores do próprio jornal.

O grupo Globo segue a toada na tentativa de conter o ímpeto ditatorial bolsonarista enquanto avaliza (de)formas patrocinadas pelo ministro da economia e o arrocho (i)legal do queridinho e parceiro de travessuras processuais Sérgio Moro.

É a mesma empresa capaz de esconder as revelações da Vaza Jato – para manter a caça implacável a Lula – e escoar vazamentos criminosos da Lava Jato. Ambos veículos – assim como Estadão, Valor etc – foram avalistas das reformas da Previdência e Trabalhista e, na mobilização pela aprovação, esconderam como ninguém os pontos negativos das mudanças na lei e a ausência de benefícios à população – o desemprego alto e a crise no Chile atestam como as iniciativas são meros truques legislativos para legitimar interesses privados.

Esse jornalismo self-service contraditório – refém dos bancos patrocinadores e empenhado em ampliar o lucro dos especuladores – é um permanente atentado contra os princípios da democracia.

Revela apenas uma independência fajuta emoldurada em narrativas palatáveis para humanizar monstros e naturalizar a expropriação dos pobres e miseráveis pelos ricos de sempre.

E ainda pede a sua contribuição.

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