A exaltação da ditadura por Bolsonaro está toda num editorial de Roberto Marinho que ele tem exibido. Por Kiko Nogueira

Ele

Jair Bolsonaro vai repetir na sabatina da Globo News desta sexta, dia 3, um texto que tem usado para defender que o Brasil não teve ditadura militar.

Alega que, num regime realmente autoritário, não teria nascido a TV Globo em “meia cinco” (esse linguajar de tira de seriado dos anos 70 é de doer).

É uma estupidez, dadas as cassações, perseguições, atos institucionais, suspensão de habeas corpus, censura.

Mas Bolsonaro toca numa verdade inconveniente para a Globo: ela foi criada por causa do golpe, não apesar dele, com o intuito de dar-lhe sustentação midiática, tarefa que desempenhou com brilhantismo.

O livro “Dossiê Geisel”, baseado nos arquivos pessoais do penúltimo general, conta que o ministro da Justiça Armando Falcão definia Roberto Marinho como “o maior e mais constante amigo” na imprensa.

Ao reivindicar novas concessões, o “Doutor Roberto” mencionava seu “constante apoio”. Em reunião com Golbery, afirmou que o comportamento da emissora “deveria fazê-la merecedora de atenção e favores especiais”.

Bolsonaro costuma tirar do paletó um editorial de RM, publicado no Globo em 7 de outubro de 1984, chamado “Julgamento da Revolução”.

“Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de preservação das lnstituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”, escreve Marinho.

Ainda: “Acompanhamos esse esforço de renovação em todas as suas fases. No período de ordenação de nossa economia, que se encerrou em 1977. Nos meses dramáticos de 1968 em que a intensificação dos atos de terrorismo provocou a implantação do AI-5. Na expansão econômica de 1969 a 1972, quando o produto nacional bruto cresceu à taxa média anual de 10%.”

“Não há memória de que haja ocorrido aqui, ou em qualquer outro país, que um regime de força, consolidado há mais de dez anos, se tenha utilizado do seu próprio arbítrio para se auto-limitar, extinguindo os poderes de exceção, anistiando adversários, ensejando novos quadros partidários, em plena liberdade de imprensa.”

E por aí vai.

Toda a elegia da ditadura está ali, com a assinatura de Roberto Marinho.

Ao exibir esse artigo como as tábuas da lei, Bolsonaro está cobrando que seja reconhecido como igual. Ele é o filho enjeitado da Globo. Sem ela, JB não seria possível.

O editorial de Roberto Marinho louvando o golpe de 64 vinte anos depois

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