A fantasiosa ‘crise militar’. Por Leandro Fortes

Só o Estadão viu 'histeria coletiva' entre os militares
Só o Estadão viu ‘histeria coletiva’ entre os militares

Foi o marechal Castelo Branco, primeiro ditador pós-golpe de 1964, que com muita propriedade conceituou a costumeira turba de puxa-sacos e paus mandados que iam buscar nos quartéis o que as urnas não lhes davam.

“Vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar”, bem definiu o marechal, sarcástica analogia com as moças de afazeres que seguiam as tropas de infantaria, em guerras passadas.

No 7 de Setembro, com as tropas em desfile, as vivandeiras novamente se alvoroçaram.

Uma matéria publicada em O Estado de S.Paulo dava conta de uma “histeria coletiva” nos quartéis por conta de um decreto assinado pela presidenta Dilma Rousseff, pelo qual se retiram poderes dos comandantes militares para delegá-los ao ministro da Defesa.

Entre eles, competência para assinar atos relativos a pessoal militar, como transferência para a reserva remunerada de oficiais superiores, intermediários e subalternos; reforma de oficiais da ativa e da reserva; promoção aos postos de oficiais superiores; e nomeação de capelães militares.

Ou seja, por ato administrativo legal, Dilma tirou atribuições de subalternos e as deu ao chefe deles, o ministro da Defesa.

Realmente, um escândalo.

Justifica-se, pois, a “histeria coletiva”, embora esta só tenha sido vista e ouvida pelo Estadão. Posto que, até onde se sabe, não foram vistos nem oficiais nem praças, país afora, berrando e arrancando os cabelos, nem em vias públicas, nem nas tradicionais vilas militares.

Entre as vivandeiras, contudo, o decreto foi a senha para atrelar às crises política e econômica uma fantasiosa crise militar, ingrediente que faltava ao déjà vu golpista repetido, a cada manifestação fracassada de retardados on line, como triste farsa verde-amarela.

As engrenagens de comunicação do governo Dilma, cada vez mais enferrujadas, ainda não se moveram para barrar o ridículo das vivandeiras. Mesmo que para isso baste se explicar a razão prática do decreto: por um fim nas transações de pessoal movidas por interesses pessoais, políticos e ideológicos dentro das Forças Armadas.

O poder concedido a esses feudos é antigo, mas foi consolidado durante a ditadura militar (1964-1985). Desde então, se mantiveram intocados, mesmo depois da criação do Ministério da Defesa, em 1999.

Graças a ele, os comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica mantêm vivo um esquema de apadrinhamento e seleção política que serve, na ponta, para favorecer oficiais alinhados e subservientes em detrimento de verdadeiras lideranças militares, sobretudo nas escolhas para serviços no exterior e nas listas de promoção de oficiais generais.

Trata-se de um sistema até então intocável e hermético, responsável, ainda, pela sobrevivência da doutrina de segurança nacional como pilar ideológico dentro dos cursos de formação das Forças Armadas.

Uma correia de transmissão de conhecimento que permite, desde a redemocratização para cá, que uma geração de oficiais contamine a outra com anacronismos da Guerra Fria, sobretudo o anticomunismo, o antiesquerdismo e, na sua versão mais recente, o antipetismo.

Com o decreto, Dilma e o ministro da Defesa, Jaques Wagner, terão a oportunidade de oxigenar um ambiente intoxicado por cinco décadas de corporativismo autoritário.

Será, também, uma forma de verificar de perto a maneira como os militares são colocados na reserva, tanto para verificar casos de perseguição interna, como para entender os mecanismos que permitem a muitos deles, logo depois de reformados, assumirem os mesmos cargos, com salário extra, mas em trajes civis.

Sem falar na nomeação dos capelães, figuras míticas que muitos achavam, inclusive, extintas desde a Guerra da Coreia. Existem capelães evangélicos? Capelães rabinos? Capelães pais-de-santo?

As vivandeiras da mídia já elegeram um alvo para o linchamento público: a secretária-geral do Ministério da Defesa, Eva Maria Cella Dal Chiavon.

Enfermeira de formação, Eva chefiou a Casa Civil do governo da Bahia, no primeiro governo de Wagner, entre 2007 e 2011. Também foi, no governo federal, secretária-executiva dos ministérios do Trabalho, da Secretaria de Relações Institucionais, e do Planejamento.

É uma mulher com fama de durona, com brilho próprio e coragem incomum dentro dos governos do PT. Desde que assumiu o cargo, é tratada como “comunista vagabunda” em grupos militares e de extrema direita nas redes sociais, onde o machismo e a misoginia são exaltados como virtudes.

É uma cachorrada que faz questão de frisar as ligações dela com o Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Eva é casada com Francisco Dal Chiavon, uma das principais lideranças nacionais do MST.

Logo, pela lógica binária da direita debiloide vai-pra-Cuba nacional, as Forças Armadas estão sob o comando do MST.

Não há crise militar alguma, nem há razão para a caserna ficar melindrada por conta de um ato administrativo soberano do Poder Executivo.

Mas, se continuar calado, o governo vai deixar que o alvoroço das vivandeiras da mídia se junte às panelas dos analfabetos políticos que se esgoelam nas varandas dos condomínios de classe média a pedir o impeachment da presidenta da República.

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