A fascinante história por trás de “Total Eclipse of the Heart”, maior sucesso de Bonnie Tyler

Atualizado em 9 de julho de 2026 às 16:32
Bonnie Tyler no clipe de “Total Eclipse of the Heart”. Reprodução

 

Bonnie Tyler nasceu em 1951 em uma cidade mineradora de carvão no País de Gales. Mas a voz que a transformaria em uma das cantoras mais marcantes da música surgiu de forma inesperada. Em 1977, ela passou por uma cirurgia para retirar nódulos das cordas vocais. Durante a recuperação, contrariou a recomendação médica e gritou, causando um dano permanente que deixou sua voz rouca, áspera e inconfundível.

Foi justamente esse timbre poderoso que deu vida a “Total Eclipse of the Heart”, a balada épica que salvou sua carreira, virou um dos maiores sucessos dos anos 1980 e ganhou um videoclipe tão surreal quanto inesquecível, gravado em um antigo manicômio e povoado por crianças de olhos brilhantes, ninjas, esgrimistas e pombas em câmera lenta.

Bonnie Tyler morreu na quarta-feira (8), aos 75 anos. Dois meses antes, havia sido colocada em coma induzido após uma cirurgia intestinal de emergência em Faro, Portugal, cidade onde mantinha uma residência. O silêncio sobre seu estado de saúde preocupou os fãs, principalmente porque ela sempre transmitiu uma imagem de força. Nas apresentações, cantava com intensidade impressionante, enquanto discos como “Natural Force”, “Diamond Cut” e “Faster Than the Speed of Night” reforçavam essa identidade.

Um compositor apaixonado pelos excessos

“Total Eclipse of the Heart” foi criada por Jim Steinman, um dos compositores mais extravagantes da música pop. Ele ficou conhecido principalmente por escrever os grandes sucessos de Meat Loaf, especialmente o álbum “Bat Out of Hell”, lançado em 1977 e que venderia mais de 43 milhões de cópias no mundo.

Muito antes desse sucesso, Steinman era um estudante da Amherst College, em Massachusetts. No fim dos anos 1960, escreveu o musical experimental “The Dream Engine”, uma obra repleta de nudez, simbolismo e referências ao medo da guerra nuclear.

Foi ali que surgiu, pela primeira vez, o verso “Turn around, bright eyes”. Na peça, a frase fazia referência ao clarão produzido por uma explosão nuclear — uma imagem que décadas depois seria reaproveitada como o refrão mais famoso de “Total Eclipse of the Heart”.

O espetáculo chamou a atenção do produtor teatral Joseph Papp, que levou Steinman para Nova York. Foi lá que ele conheceu Meat Loaf, cantor e ator que compartilhava sua paixão pelo exagero e pela grandiosidade teatral.

Bonnie Tyler insistiu em gravar com Steinman

Após o sucesso de “It’s a Heartache”, Bonnie Tyler enfrentou um período de queda na carreira. Em busca de uma mudança de rumo, assinou com uma nova gravadora e decidiu abandonar o country rock para investir em um som mais pesado.

Em entrevista ao jornal The Guardian em 2023, ela contou que se encantou ao assistir Meat Loaf cantando “Bat Out of Hell” no programa britânico “Old Grey Whistle Test”. Determinada, pediu ao executivo Muff Winwood que a apresentasse a Jim Steinman.

A resposta foi desanimadora.

— Jim nunca vai aceitar.

Mesmo assim, Tyler insistiu.

Os dois acabaram se encontrando no apartamento do compositor, em Nova York, em 1982. Depois de perceber a afinidade musical entre eles, Steinman aceitou produzir seu novo álbum. Bonnie ainda gravaria versões de “Have You Ever Seen the Rain?”, do Creedence Clearwater Revival, e “Goin’ Through the Motions”, do Blue Öyster Cult.

Uma música feita para aquela voz

Steinman escreveu “Total Eclipse of the Heart” praticamente como uma vitrine para a voz de Bonnie Tyler. Embora a música tenha sido concebida como um dueto — com Rory Dodd cantando os famosos versos “Turn around” —, toda a composição gira em torno da interpretação explosiva da cantora.

Em uma entrevista de 1983, Steinman resumiu o que enxergava nela.

“A voz dela não é pura nem suave. Parece castigada, como se tivesse passado por muita coisa. É disso que o rock and roll é feito.”

A gravação contou ainda com músicos da E Street Band, entre eles Roy Bittan no piano e Max Weinberg na bateria.

Uma explosão de drama

Hoje, poucos classificariam “Total Eclipse of the Heart” simplesmente como rock. A música é uma gigantesca power ballad sobre um amor perdido, construída para crescer continuamente até atingir níveis quase operísticos de intensidade.

Steinman nunca foi conhecido pela sutileza. Também escreveu clássicos como “It’s All Coming Back to Me Now”, gravada por Celine Dion, e “I’d Do Anything for Love (But I Won’t Do That)”, outro enorme sucesso de Meat Loaf.

Para a compositora Diane Warren, autora de alguns dos maiores sucessos do gênero, “Total Eclipse of the Heart” é simplesmente perfeita.

“Bonnie transmite todo o drama da música. Foi a voz dela que deu vida à composição de Jim.”

O crítico Tom Breihan, do Stereogum, define a canção como o auge das power ballads dos anos 1980.

“Era uma época em que ninguém tinha vergonha de exagerar. Talvez por isso ela continue viva nos karaokês. É uma música dificílima de cantar. Pode soar horrível, mas cantar essa música faz qualquer pessoa se sentir incrível.”

O videoclipe mais surreal da MTV

Boa parte da fama de “Total Eclipse of the Heart” também veio do videoclipe dirigido por Russell Mulcahy.

Gravado em um antigo manicômio transformado em internato inglês, o vídeo mistura elementos aparentemente sem sentido: ninjas dançando, esgrimistas, ginastas, garotos sem camisa usando óculos de natação, pombas em câmera lenta, máquinas de vento e inúmeras velas.

Anos depois, Mulcahy contou que o roteiro era fruto de conversas completamente insanas com Steinman.

“Eu dizia: ‘Vamos colocar ninjas em uma escola’. E ele respondia: ‘Vamos colocar um coral de meninos com olhos brilhantes’. Jim era maravilhosamente maluco.”

Um clássico eterno

Bonnie Tyler ainda voltaria às paradas americanas com “Holding Out for a Hero”, novamente escrita por Jim Steinman.

O compositor morreu em 2021, aos 73 anos, vítima de insuficiência renal. Mas “Total Eclipse of the Heart” continua atravessando gerações, acumulando centenas de milhões de reproduções nas plataformas de streaming e mais de um bilhão de visualizações no YouTube.

Quatro décadas após seu lançamento, a canção permanece como a obra-prima de Bonnie Tyler e uma das baladas mais grandiosas da história da música popular, transformando uma voz nascida por acidente em um dos sons mais reconhecíveis de todos os tempos.

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